Destaque

Entre Copos d’água e Desmaios

Quando Clóvis decidiu, por vontade própria, morar na casa de repouso, Mário já vivia ali há cerca de cinco anos. Depois de um esbarrão no corredor, um “oi” aqui e um “como vai?” ali, não demoraram a fazerem amizade. Tinham muito em comum. Eram viúvos, avôs e solitários dentro de seus núcleos familiares.

No caso de Clóvis, fora a filha com marido, filhos, cachorro e dois gatos quem se mudara para sua residência. No entanto, em pouco tempo, ele se transformou no hóspede indesejado na própria casa.

Aparentemente, sofrera menos com a passagem do tempo, ao passo que Mário parecia ter carregado o mundo nas costas. Cada qual, a sua maneira, havia abandonado ou sublimado sonhos e desejos ao longo de suas vidas em troca de aceitação e dependência afetiva. No entanto, a convivência entre ambos produzira um verdadeiro milagre. Tornaram-se mais alegres e saudáveis.

Ao perceber o resultado, a filha até insistiu para que ele voltasse a morar com ela.

– Não, você tem a sua família… Estou bem, quero ficar aqui, por enquanto.

– Pai! Todos nós te amamos. Volte a morar conosco. Seu lugar não é aqui.

– Preciso de sossego…

Abraçaram-se longamente e se despediram.

Três filhas. Rute, a caçula, esforçava-se mais que as outras para demonstrar afetividade. Sim, ele conhecia muito bem cada uma de suas crias.

Ela lecionava matemática numa dessas escolas caras de gente rica. O marido engomadinho era proprietário de uma loja de automóveis. Com a ajuda da ciência, depois de várias tentativas, colocaram filhos gêmeos no mundo. Terríveis, chatos, insuportáveis! Clóvis lamentava, mas queria distância dos netos adolescentes.

Casal moderno, decolado, não se cansavam de buscar ascensão social. Frequentemente ofereciam jantares e festas para amigos, conhecidos, potenciais clientes e sócios. Não desperdiçavam uma oportunidade.

Gostavam de viajar e de consumir. Davam a impressão de terem dinheiro sobrando, mas não pagavam nada para morarem no imóvel de Clóvis. Gente folgada!

As outras filhas possuíam um medo exagerado de que ela herdasse tudo sozinha. As brigas eram constantes entre elas. Nem suspeitavam da surpresa que lhes preparava em relação à herança.

Rute fora chamada pelo diretor da casa de repouso. Assunto urgente! Ela se assustara. Quase batera o carro durante o percurso, tamanho o desespero. Nem avisou as irmãs. A casa! A casa! A casa! O estômago revirava.

A secretária a acalmou de imediato.

– Ele está bem! Bem até demais, ironizou. Espere aqui, vou chamar o seu Gilberto para conversar com a senhora.

A secretária apontou displicente uma mesinha com café, chá e biscoitos. Saiu.

Não havia nada mais a fazer, além de esperar. Sentou-se num sofá ao lado de um rapaz, sem cumprimentá-lo.

– Oi! Eu sou João, filho do Mário.

– Prazer…

A imagem da casa não lhe saía da cabeça. Ela despendera ao longo dos anos muito trabalho para tentar convencer o pai a deixar-lhe o imóvel. Puxara o saco e se fizera de boa à exaustão. Não era justo perdê-lo agora. As irmãs que se ferrassem.

Olhou para o moço e torceu o nariz. Lembrou-se que o tal de Mário era amigo de seu pai.

– Sabe do que se trata?

– Não, não me adiantaram nada. Deve ser alguma bobagem. As pessoas daqui adoram fazer tempestade em copo d’água.

A mulher apenas balançou a cabeça afirmativamente.

Nesse instante, surgiu o seu Gilberto, o diretor da casa de repouso, visivelmente estafado. Convidou-os a entrarem em sua sala e não fez rodeios, foi direto ao assunto:

– Precisamos tomar algumas decisões urgentes. Seus pais estão mantendo um relacionamento homossexual em meu estabelecimento.

Depois de um olhar de “eu não entendi”, a ficha caiu. Rute soltou um gritinho e simulou um desmaio. Rapidamente, o rapaz tentou reanimá-la. O diretor apenas franziu o cenho.

João estranhou, mas depois achou engraçado. Uma onda de contentamento meio que lhe percorreu o rosto. Depois de quinze anos de solidão, seu velho finalmente resolvera namorar. Com certeza era isso que o estava deixando com um aspecto melhor. Ficara mais falante, menos enrugado. Nossa! Até ganhara uns quilinhos. Quem diria?!

Rute continuava tonta, mas pegou o copo d’água que a secretária lhe oferecia.

Aquilo era um sonho, um pesadelo, uma piada. Imaginem só! O seu pai tendo um caso com outro homem! Ele gostava de mulher, pois sempre tivera fama de mulherengo! Que absurdo! Como um homem daquela idade, pai e avô se tornaria gay de uma hora para outra? Fez cara de nojo. Gordo, careca e barrigudo! Usava uma barba horrorosa e ainda havia aquelas sobrancelhas grossas. Como um homem daqueles despertaria desejo em outro homem? Ridículo!!!!

– Que brincadeira de mau gosto! Como pode me fazer perder meu tempo à toa? Nunca poderia pensar que o senhor, seu Gilberto, faria um papel desses!

O diretor bocejou impaciente. Apontou para a janela. De lá poderiam constatar com os próprios olhos uma cena peculiar do dia a dia.

O casal caminhou em câmara lenta. João torcia para que fosse verdade e Rute por um desagradável engano. Um jardim foi-se revelando aos poucos. Por lá passeavam algumas figuras joviais e falantes, outras tristes e com o olhar perdido em algum lugar do passado. Havia aqueles que precisavam de apoio para caminhar ou da ajuda das enfermeiras e assistentes para realizarem atividades simples. Naquela manhã ensolarada, quem não participava da aula de dança, caminhava sem preocupação pelo jardim.

Os dois homens estavam abraçados, sentados num banco observando o que acontecia ao redor. Mário apoiava a cabeça no ombro de Clóvis. Conversavam algo, serenos. Num dado momento se entreolharam e seus lábios se tocaram num beijo apaixonado.

Rute deixou o copo d’água cair no chão.

J. Campos

Barueri, 05-07-2018

 

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A Academia de Vampiros e o fast food

No ambiente de trabalho, durante uma conversa informal e descontraída, devo ter comentado algo sobre o tipo de leitura que me agradava. Não que eu seja ortodoxo, reacionário, preso a um só modelo de autor ou temática. Considero-me bastante eclético. Quando chegamos a determinadas fases, onde eu incluo esta, na qual estou cursando uma licenciatura em letras, preferimos manter determinado foco. Assim, no momento, estou interessado em outro tipo de literatura. No entanto, eis que sou desafiado a ler o primeiro volume da saga “Academia de Vampiros: O Beijo das Sombras”, de Richelle Mead.

Neste romance, Lissa Dragomir é uma princesa de uma sociedade de vampiros denominados Moroi. Rose Hathaway é a sua melhor amiga, mas ela pertence a outra categoria, os Dampiros, seres meio vampiros, meio humanos. Hathaway tem como missão se tornar uma guardiã e proteger Lissa dos Strigoi. Estes últimos são vampiros poderosos e corrompidos que precisam do sangue Moroi para manter sua imortalidade. O livro começa com as duas amigas sendo trazidas pelos guardiões de volta para a escola São Vladimir, após uma fuga de dois anos. A partir daí, a história lança os dilemas adolescentes numa trama juvenil vampiresca, com pitadas de romance, aquela coisa de alunos populares e impopulares, um pouco de futilidade e egoísmo, rebeldia com e sem causa, mistério, amizade, etc. Nada é novo ou revolucionário, mas desperta um interesse razoável.

Depois de alguma insistência bem-humorada, aceitei a dica literária. Não fiquei empolgado, devo confessar. Já possuía no meu currículo a experiência de ter assistido ao primeiro filme daquela trilogia, a tal de “Crepúsculo”. Não nutria, portanto, muitas expectativas em relação a obra de Richelle Mead. Certas “licenças poéticas” que se fazem atualmente destas pobres criaturas, os vampiros, são decepcionantes. Mas só aprendemos e mudamos os nossos preconceitos, quando nos dispomos a conhecer e a nos expor às diferenças. Como interessado em literatura, sei que devo investir numa visão abrangente das diversas manifestações de escrita que temos a nossa disposição.

Grosso modo, o livro de Richelle Mead é apenas de entretenimento, pois não apresenta a expressão artística e a estética que consagraram os clássicos e a literatura contemporânea mais densa. Até aí, tudo bem.

São livros, com todas as suas qualidades e defeitos, voltados para um lucrativo nicho de mercado editorial. Atendem a uma demanda de leitores ávidos por uma leitura fácil, ágil, linear, sem grandes elucubrações e servidos no melhor estilo fast food. São feitos simplesmente para entreter. Para ler e esquecer, mesmo quando têm alguma pincelada de mensagens edificantes. São válvulas de escape.

Ler o “Academia de Vampiros”, é como ir a um “Macdonald’s” ou qualquer outra rede de lanches ou de comidas rápidas. O cliente pede um lanche grande, enorme, gorduroso e cheiroso. Sorridente, o funcionário lhe serve o lanche com todo aquele queijo cheddar, hambúrguer, uma mísera rodela de tomate e uma folha de alface, além de mostarda, maionese e catchup escorrendo por entre as diferentes camadas. E a batata? De preferência ela deve gritar quando o cliente faminto lhe lançar um olhar: Me come! Me come! Me come! O atendimento tem que ser rápido, padronizado e as opções de lanches devem ser poucas para não complicarem a vida e a cabeça dos pagantes. Ao redor, um ambiente limpo, moderninho, americanizado, regado a palavras e expressões em inglês duvidoso. O preço deve ser caro, mais caro que um bom prato de comida saudável. Depois, a pessoa come de boca cheia e com um sorriso de orelha a orelha.

De vez em quando, não faz mal nenhum saborear um delicioso sanduíche, acompanhado de batatas fritas quentinhas e crocantes e beber um copo enorme cheio de refrigerante. No entanto, um prato com arroz, feijão, ovo frito e almeirão refogado também é muito gostoso.

Li o “Academia de Vampiros” como se tivesse ido àquela lanchonete comer o tal sanduíche. Comi sem culpa e por prazer. Entretanto, não saciei a minha fome. Senti falta de algo mais nutritivo.

As boas leituras estimulam e desenvolvem as habilidades relacionadas à aquisição de conhecimento (pensamento, linguagem, percepção, memória, raciocínio, etc.), contribuem para levar a pessoa a se colocar no lugar do outro e a entenderem melhor o mundo a sua volta. Elas prestam auxílio na formação de indivíduos capazes de buscarem soluções criativas para problemas cotidianos, além de fornecerem embasamento para discussões éticas. Bons leitores conseguem diferenciar opinião de argumentação e fogem das armadilhas das discussões superficiais e apelativas.

Uma pessoa adquire o hábito de ler gradualmente, com textos e autores que mais o agradam e despertam a sua atenção. Se livros como os de Richelle Mead desempenham este papel entre os jovens e os não tão jovens, não podem ser desprezados. Se, além de estimular, forem capazes de catapultar o leitor para leituras, mundos e reflexões mais densas, melhor ainda.

J. Campos

Barueri, 09-04-2018

Curriolas, Trouxas, Muquifos, “pé-pé-pé…pé-ré-pé-pé”, Joguinho Ladrão!!!

Durante anos, apesar da leitura de fragmentos e textos esporádicos, sentia o interesse por me aprofundar na obra do escritor João Antônio Ferreira Filho (1937-1996).

Entre uma leitura aqui e outra ali, os livros de João Antônio ficaram para trás. E o tempo passou.

Até que percorrendo uma dessas redes sociais, deparei-me com um comentário sobre o escritor que entre outras palavras empurrava um “datado e ponto final”. Como?! Estranhei.

Motivado pela opinião pouco amistosa do internauta, a leitura do livro de contos “Malagueta, Perus e Bacanaço” (1963) tornou-se uma prioridade.

A análise a seguir limita-se a algumas reflexões sobre o conto homônimo.

“Malagueta, Perus e Bacanaço” foi o livro de estreia do escritor João Antônio. Dada a qualidade literária e à inovação em relação ao tema e à linguagem (ele trazia para o texto o modo de falar das ruas e dos jogadores de sinuca), conquistou público e crítica. Como consequência conseguiu simultaneamente dois prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos), entre outras premiações.

Houve uma adaptação do texto para o cinema na década de 1970. Trata-se de “O jogo da vida” (1976), dirigido por Maurice Capovilla. O roteiro foi de responsabilidade de Capovilla, além do próprio João Antônio e de Gianfrancesco Guarnieri. O filme é estrelado por Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Maurício do Valle. Na trilha sonora, músicas de João Bosco e Aldir Blanc.

No conto, o leitor acompanha os três personagens, apelidados como Malagueta, Perus e Bacanaço ao longo de uma noite. São três malandros, que, entre outras atividades ilícitas, ganham a vida nas mesas de sinuca através da prática de trapaças e conluios. Motivados pela falta de dinheiro (“Estavam os três quebrados, quebradinhos…”), pelo pouco movimento e pela ausência de trouxas/otários em um salão localizado no bairro paulistano da Lapa, o Celestino, decidem sair dali. Percorreriam as ruas, bares, botequins e os salões de jogos de sinuca à procura de indivíduos que eles identificassem como trouxas, otários, coiós, mocorongos, papagaios enfeitados e cavalos-de tetas.

“Os três tacos, direitinhos como relógios, levantariam no fogo do jogo um tufo de dinheiro. Tinham a noite e a madrugada. Virariam São Paulo de pernas para o ar.”

Embora malandros, existia regras e certa lealdade entre eles. Há uma passagem do texto na qual somos apresentados à história de Bacalau. Era um malandro que, de forma descarada, ganhara o dinheiro de Sorocabana, um trabalhador da estrada de ferro. “Para que trouxa quer dinheiro?”. Entretanto, Bacalau, por egoísmo ou esquecimento, não oferecera nenhum mimo para a curriola. Quando precisava, ele sabia que podia contar com o grupo. Dois dias depois, através de denúncia anônima, foi preso pela polícia.

A história se passa numa São Paulo da década de 1960, onde ainda circulavam bondes pela cidade. O filme transporta os personagens para a década de 1970. Os bondes sumiram, todavia, todo aquele painel sociológico apresentado por João Antônio ainda se fazia presente, como também, com certas mudanças e novos acréscimos, ainda persiste nos dias de hoje.

Em volta das mesas de sinuca e dos botequins, além dos jogadores, existia um mundo por onde circulavam os indivíduos menos favorecidos, trabalhadores, mascates e operários advindos das classes sociais mais baixas e das periferias, assim como crianças e adolescentes lutando pela sobrevivência. Outros tipos compunham esse universo: homossexuais, estudantes de escola noturna, cafetões, prostitutas, pedintes, batedores de carteira, traficantes, policiais corruptos, etc.

“Gente. Gente mais gente. Gente se apertava […], gente que vem ou gente que vai.”

A história contada não é amena. Os personagens não são pitorescos, engraçados ou caricatos. A pobreza e a miséria tanto daquela época como a de agora ainda tem elementos desconhecidos, mascarados. Não se restringem a lugar específico ou datado. Os seres que aí habitam, no entanto, não estão conformados, paralisados. Eles lutam, sofrem e se irritam com aquele mundo que os prende, mas que é o único que conhecem e que lhes oferece alguma coisa em troca.

No conto, João Antônio não descreve, entretanto, uma luta de classes, ele apenas nos apresenta uma realidade vivida por certa parcela da sociedade, muitas vezes invisível. Não há julgamento ou idealização.

No filme o personagem Perus apresenta outras características que o conduzem ao questionamento da desigualdade social e da exploração no trabalho. Em “Malagueta, Perus e Bacanaço”, ele é retratado como um jovem de dezenove, “fugido do quartel”, havia saído de casa devido a problemas de relacionamento com o padrasto. Em “O Jogo da Vida” ele é um homem inconformado com o trabalho penoso numa fábrica de cimento, que abandona tudo para tentar a sorte no jogo.

Há uma ausência de humor na trajetória dos três personagens no texto. Em “O Jogo da Vida”, Capovilla se vale um pouco desse recurso na composição de Malagueta, talvez para criar uma dinâmica da qual o conto não necessite.

Parece-me que a noite descrita em “Malagueta, Perus e Bacanaço” é mais opressiva do que em “O Jogo da Vida”. Entretanto, em ambos, a feiura de tudo e todos remete para a nostalgia, a beleza e a poesia.

J. Campos

26-02-18

O que você esperava que fosse acontecer?

– O que você esperava que fosse acontecer?

Silêncio. Mirianês permaneceu apática diante da pergunta da Velha Senhora. O que poderia dizer-lhe? Aliás, não esperava mesmo por muita coisa daquele encontro feito às pressas.

No momento, não sabia definir bem o que estava sentindo, talvez uma mescla de vergonha e raiva. Correra, humilhara-se e se desespera na busca de documentos, pessoas e lugares, até chegar àquela mulher.

Os olhos secos e sem brilho da mais jovem tentavam inutilmente buscar alguma distração no ambiente ao seu redor.

– Esperava que nos abraçássemos e chorássemos juntas? – perguntou a Velha Senhora, exibindo um leve sorriso de intimidação e menosprezo nos cantos dos lábios.

Palavras iam e poucas voltavam. Mirianês esforçava-se o quanto podia para suportar o estranho desenrolar daquela conversa. Emitia monossílabos e risos sem graça. Para complicar, não havia nada de muito interessante que pudesse chamar a sua atenção por ali. Lembrou-se de repente da atriz Debbie Reynolds. Por que ela? Por que pensaria nela agora?

Ah, sim! Vira um filme antigo na tv. Ela era a mãe da Carry Fisher, a princesa Leia do “Guerra nas Estrelas”. Nossa! Ficara patética usando um penteado que lembrava, mesmo que vagamente, o da personagem do filme. Boba! Boba! O que pretendia com aquilo?

Na mesa ao lado, um grupo de pessoas conversavam animadas. De vez em quando, um homem soltava uma risada um pouco mais alta. No início, a sua voz de locutor de rádio a impressionara. No entanto, à medida que o tempo foi passando, ficara chata, cansativa. Nossa! Como, às vezes, a vida pode ficar difícil!

– Por que agora? Por que me procurou só agora? Achava que eu fosse uma pessoa melhor? Achava que eu também a procurasse? Sinto muito, querida, mas eu não me arrependi do fiz. Faria tudo de novo se fosse preciso.

Mirianês observou que, lá na frente, próximo a entrada, uma garota, atarracada dentro de um short minúsculo, soltara um gritinho, quando um dos rapazes que a acompanhava cochichou algo em seu ouvido. Riram maliciosos, quando ela soltou um “atrevido”.

– Sabe… eu era muito jovem, tinha toda uma vida pela frente. Tinha muito a perder…

O garçom as interrompeu, quando chegou com os cafés.

– Com licença! – disse o homem em tom sério, automático.

– Hum! Adoro café com baunilha – entusiasmou-se a Velha Senhora.

Alguém derrubou um copo. Empolgado, o Homem com Voz de Locutor de Rádio não se conteve e soltou um “uhuuu!!!”, acompanhado de uma sonora gargalhada.

– Pode soar egoísta, mas eu não pensei em você um só instante em todos esses anos. Apaguei a sua existência de minha vida. Aliás, você escolheu um péssimo momento para reaparecer. Tenho coisas mais importantes, mais urgentes para me preocupar nesse momento. Sabe… não me considero uma pessoa ruim por isto. Não sou santa, ninguém é. Somos todos de carne e osso. A vida é curta demais. Eu precisava escolher e escolhi. Eu escolhi o melhor para mim. Apenas uma questão de sobrevivência, querida. A minha sobrevivência!

Uma criança lá no fundo do restaurante começou a gritar e a chorar porque não queria comer o que a mãe lhe oferecia. Deu um tapa na colher cheia que se aproximava de sua boca. Sujou um senhor de óculos da mesa ao lado. A mãe, semblante cansado, fingiu não ver. O moleque gritava, xingava, esperneava. Que chato! pensou Mirianês.

– Por que não pede um pedaço desta torta também, querida? Está deliciosa.

Mirianês lembrou-se que fizera na véspera um enorme bolo de chocolate. Achara uma receita numa revista velha. Uma revista que furtara de um consultório de dentista. Às vezes gostava de cometer pequenos deslizes. Coisas inconsequentes, quase infantis.

Havia imaginado um bate-papo agradável entre as duas. Imaginara que sairiam dali felizes, depois do reencontro. Fariam planos, enquanto se dirigissem até a sua casa. Uma casa pequena, alugada, perdida na periferia da cidade, mais ou menos a três horas de ônibus dali. Mas o conto de fadas transformara-se numa história de terror. Quando voltar, terá que comer o bolo sozinha. E a tubaína? Idiota!!! Burra! Burra!!! Como iria convidar uma mulher chique como aquela para ir à periferia? E de ônibus? Pra comer bolo e tomar tubaína!!! Por que fizera um bolo tão grande?

– Tem muito livrinho, muito filminho e igrejinhas contando histórias como a nossa. Prometem finais felizes, cheios de amor e redenção. Uma droga! Tudo bobagem! Volto a dizer, não me arrependo do que fiz. Não vou comprometer a vida que eu tenho hoje por sua causa. Não me leve a mal, querida. Tenho o meu marido, meus filhos, meus netos. Eu os amo muito. Não há lugar para você em minha vida. Nunca houve.

A mulher mostrou-lhe uma foto. Uma típica família de comercial de margarina. Mirianês não se parecia com os filhos dela. Na verdade, ela também não se parecia em nada com aquela senhora.

– Seu pai não era bonito, mas era ótimo de cama. E eu… muito fogosa naquela época… Você se parece muito com ele… Já foi procurá-lo?

Fez um sinal para o garçom. De repente deu uma imensa vontade de comer aquela torta tão elogiada pela Velha Senhora.

– Consultei o meu advogado. Descobrimos algumas coisas sobre você. Você teve uma passagem pela cadeia, não é? Bem, mas agora tá livre, tá trabalhando e estudando. Eu vi um dia desses um documentário sobre uma mulher, uma ex-presidiária… Acho que vou pedir outro café. Tá muito gostoso!

O garçom trouxe a torta. Uma porção bem generosa.

– Não espere que eu vá me sentir ameaçada por você. Não vou-lhe dar dinheiro algum.

Mirianês ficou com vontade de rever um filme antigo da Debbie Reynolds. Gostava muito de “Tammy and the Bachelor”, traduzido no Brasil como “A flor do pântano”. Ela sempre preferiu filmes antigos e ingênuos. Hoje, depois de uma boa ducha, seria muito agradável rever e ouvir a atriz interpretando a canção tema, que falava de amor e de pássaros cantando.

“I hear the cottonwoods whisperin’ above

Tammy, Tammy, Tammy’s in love

The old hootie owl hootie-hoo’s to the dove

Tammy, Tammy, Tammy’s in love

Does my lover feel what I feel when he comes near?

My heart beats so joyfully

You’d think that he could hear

Wish I knew if he knew what I’m dreaming of

Tammy, Tammy, Tammy’s in love”

Sentia uma grande necessidade de ser transportada para um mundo e uma realidade mais leve, açucarada e feliz.

Observou a Velha Senhora com mais atenção. Muito bonita e elegante. Usava um desses cortes de cabelo moderninhos. A cor parecia um desses loiros da moda e de nomenclatura duvidosa. Ela exalava um perfume enjoativo, mas, provavelmente, caro e de marca. Daqui a pouco, quando terminar de comer o seu pedaço de torta, diga-lhe que conhecera o pai a cerca de três dias. Contaria sobre a conversa que tiveram. Há muitos anos atrás, além de uma gravidez inoportuna, ele presenteara aquela mulher com piolhos, chatos e uma tremenda encrenca perante a família. Foi ele quem sugeriu o nome do bebê: Mirianês. O Miriam veio da mãe dele. E Inês era o nome da Velha Senhora. Fora ele quem entregara a criança para uma mãe adotiva, em troca de dinheiro e de uma nova oportunidade para os dois, cada qual em seu caminho.

J. Campos

Barueri, 23-01-2018

Muito Além de Uma Paixão Silenciosa

O filme “Além das palavras” (A quiet passion, no original), do diretor Terence Davies, estreou nos cinemas brasileiros em 2017. A temática e o estilo ajudam a explicar sobre a sua curta permanência em cartaz e as poucas salas disponíveis para exibição. O filme retrata a biografia da poetisa norte-americana Emily Dickinson (1830-1886).

Dickinson, interpretada pela atriz Cynthia Nixon (mais conhecida por sua participação no seriado “Sex in the City”), é considerada uma das maiores poetisas em língua inglesa. Ela teve uma vida bastante reclusa, conseguindo publicar cerca de 10 poemas num jornal local. O reconhecimento veio depois de sua morte, quando foram descobertos aproximadamente 1800 escritos de sua autoria.

No início do filme somos apresentados a uma jovem corajosa e contestadora. Foi em um seminário puritano para moças que ela se recusou a declarar a sua fé. Algo grave para a época. Consequentemente, desistiu de frequentar tal escola.

A jovem Emily é aquela que escandaliza a pobre tia conservadora, ou ainda, a mulher reflexiva e crítica em suas conversas com a amiga Vryling Bufam, interpretada pela atriz Catherine Bailey. Entre outros elementos, a biografia nos introduz a elementos como: a crítica e o incômodo pela subserviência dos fiéis diante dos preceitos e dogmas cristãos, do papel da mulher naquela sociedade patriarcal e a indignação perante a permanência da escravatura e da deflagração da guerra civil.

A maior parte da história se passa dentro da casa da família e seu jardim. E o diretor vai nos conduzindo cada vez mais para o interior do quarto da poetisa, conforme o filme evolui e a doença e a reclusão consomem a personagem.

A maneira como o diretor escolheu para apresentar Emily Dickinson é delicada. Não há exageros. Ficamos conhecendo a escritora de uma forma interessante. O filme não cai para o lado do documentário nem tampouco do melodrama. É bastante equilibrado. O diretor, em alguns momentos, e, principalmente, no final, em forma de narrativa, se vale da poesia de Dickinson para nos contar um pouco mais sobre ela.

A irmã de Emily, Vinnie Dickinson, interpretada por Jennifer Ehle, é uma pessoa inteligente e ousada, porém ponderada. Ela conseguia entender as aflições da irmã. Já o irmão Austin Dickinson, interpretado por Duncan Duff, evoluíra em relação ao pai, porém não o suficiente para abandonar o machismo e as características patriarcais.

Dickinson nunca se casou. Apaixonou-se por um pastor, Charles Wadsworth, um homem casado. A paixão não concretizada se voltara para alguém que soube reconhecer a qualidade de seu trabalho. Aliás, as suas ligações mais fortes aconteciam com as pessoas que sabiam reconhecê-la, que conseguiam se aproximar de seu mundo.

Dickinson não se isolou simplesmente, pois conservou o desejo de que o mundo reconhecesse o seu talento. Ela sabia que desenvolvia uma poesia de excelente qualidade. Mas ela era muito autêntica, avançada e exigente. Não se entregou à confecção de poesias palatáveis, facilmente consumíveis. Entretanto, o alto nível de exigência a levou para a amargura.

J. Campos

Barueri, 22-05-2017

 

 

Jornal de Domingo

 

Ao ler a edição dominical do jornal “O Estado de São Paulo”, do dia 16/04/2017, um texto do escritor Mário Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010, chamou a minha atenção. Na verdade, o texto foi originalmente publicado pelo jornal espanhol “El País”, sediado em Madrid e fundado em 1976, após o fim do Franquismo. Este divulga também, desde 2013, um site com versão em português.

O artigo tem como título “Ler um bom jornal”. Inicialmente, Vargas Llosa nos conta sobre o critério que adota para estar bem informado. Por hábito, ele prefere as versões “em tinta e papel”, pois, na sua percepção, as versões jornalísticas digitais lhe “parecem mais incompletas e artificiais”.

Devo confessar que possuo um pouco desta característica, pois ter um jornal em papel nas mãos traz um prazer adicional à leitura. Algo, concordo, difícil de explicar. Entretanto, devido ao corre-corre da vida moderna, não se pode dispensar a tela de um computador ou de um smartphone. Pode ser até coisa de gente das antigas, mas, com certeza, estas duas últimas opções não oferecem a mesma magia.

Já logo no início, o autor explica:

“Ler vários jornais é a única maneira de saber quão pouco sérias às vezes são as informações, condicionadas como estão pela ideologia, os medos e preconceitos dos proprietários dos veículos e dos jornalistas e correspondentes. ”

Antes que este trecho seja alvo dos adeptos dos comentários fáceis, superficiais, frívolos e inconsequentes, cabe dizer que a discussão aqui e no texto de Vargas Llosa segue na direção de uma reflexão um pouco mais ampla e elaborada.

Infelizmente, além do evidente e crescente viés subjetivo dos jornalísticos apontado pelo autor, quando a notícia deveria primar pelo objetivismo, clareza e veracidade, já sabemos, por outras fontes de leituras e estudos, que no mundo de hoje o noticiário está recheado de mentiras, meias verdades, boatos e manipulações. A internet, as redes sociais e toda uma cultura e geração, infelizmente, colaboraram para isto. É preciso garimpar se quisermos estar bem informados. Nos dias de hoje, não dá nem para confiar naquelas conversinhas informais que temos com colegas de trabalho ou amigos de longa data.

Após ler seus dois ou três jornais matinais, Vargas Llosa sente-se seguro para analisar, sintetizar e discorrer sobre os assuntos do momento.

Desta forma, ele segue o texto, destrinchando e interpretando: o presidente norte-americano Donald Trump, o russo Vladimir Putin e o sírio Bashar al-Assad. A discussão envolve um bombardeio, forças governamentais, mísseis com gás sarin, uma população desarmada e suas crianças com membros carbonizados, a visão da agonia em meio a suplícios espantosos. Menciona o governo do ex-presidente Barack Obama. Comenta a rivalidade entre reformistas, democratas e terroristas islâmicos diante de um tirano sírio e seus excessos genocidas. Fala do governo autocrático de Putin, da imperícia de Trump e do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Embora fiquemos comovidos, assim como Trump (??!!!!), com a questão síria, ele nos relembra que ocorrem outros conflitos mundo afora, tais como: as carnificinas no Afeganistão, atentados no Paquistão, a desintegração da Líbia, sequestros e massacres organizados pelo terrorismo islâmico na África, os refugiados que se arriscam no Mar Mediterrâneo em direção à Europa, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, o espetáculo de corrupção proporcionado pela empreiteira Odebrecht no Brasil e na América Latina.

Tantas questões. Todavia, a maioria dos leitores de jornais só leem superficialmente a notícia, talvez mal passem pela manchete. Depois, sairão por aí postando comentários sobre aquilo que não leram.

Vargas Llosa da mesma forma que começou, termina o artigo citando o escritor peruano César Vallejo, considerado um dos maiores poetas hispano-americanos do século XX:

““Ler um bom jornal” já não é, como quando César Vallejo escreveu esse verso, sentir-se seguro, em um mundo estável e reconhecível, mas empreender em uma excursão na qual, a cada passo, pode-se cair em “uma jaula de todos os demônios”, como escreveu outro poeta.”

 

O gosto amargo de Chocolate

“Chocolate” (Chocolat, no original), do diretor Roschdy Zem, é uma produção de 2016 do cinema francês, ano em que também estreou nos cinemas brasileiros.

O filme conta a história de Rafael Padilla (Omar Sy), nascido escravo em Cuba, por volta de 1865. Abandonado pelos pais, cresceu nas favelas de Havana até ser vendido para um empresário que o levou para trabalhar na casa da família na Espanha. Aos quinze anos conseguiu fugir e integrar-se a um circo.

Posteriormente, foi descoberto pelo palhaço George Footit (James Thiérrée), quando apresentava-se como Kananga, o canibal africano, num pequeno circo interiorano. Footit precisava se reinventar a fim de sobreviver na cena circense. Quando este assiste ao homem negro, vê ali a oportunidade de criar um número inovador. Os dois tornaram-se, a partir daquele momento, uma dupla famosa. Seus números caracterizavam-se pelo humor pastelão, onde o negro era humilhado e levava tapas e pontapés do branco, arrancando invariavelmente as gargalhadas do público. Nascia, assim, o palhaço Chocolat, o primeiro artista negro de circo a fazer sucesso na França. Esse foi um gênero de humor que consagrou, com algumas variações, artistas como Charles Chaplin, O Gordo e o Magro, Os Três patetas, Chaves e Os Trapalhões.

No decorrer da história, percebemos a dubiedade da relação entre os dois palhaços, a qual reforça a contradição entre a imagem do negro desregrado/irresponsável e o branco equilibrado. Todavia, por trás disto havia outros elementos não aprofundados no filme.

Apesar de clichês, lugares comuns e releituras, a história é muito bem contada e nos oferece alguns motivos para interpretação e reflexão. Podemos enxergar Chocolat pelo lado do pioneirismo (tanto por ele ter sido o primeiro negro a atuar como palhaço, assim como pelo ineditismo do tipo de humor que a dupla apresentava), dos preconceitos e da opressão racista, da sua inconsequência e ingenuidade, da compulsão por jogos e bebidas, de seu sucesso com as mulheres e do fracasso sofrido ao tentar interpretar a peça de teatro Otelo, de Shakespeare. A riqueza temática do personagem e o pouco tempo para contar a história, além da necessidade de tornar o filme acessível para uma maior fatia de público, talvez tenha limitado o espaço destinado às ousadias e experimentações.

Passada a euforia do sucesso, começa a fase de tomada de consciência. Inclusive e, ainda, no auge do sucesso, Chocolat é preso e maltratado na prisão. A partir daí, ele sente a necessidade de compreender, de questionar os preconceitos sofridos, mesmo aquelas pequenas coisas do dia-a-dia que, em seu somatório, se tornam grandes, sofridas e violentas. Por que a cor de sua pele o prendia a um papel de ser inferior, ignorante, selvagem, perigoso e hiper-sexualizado? Por que só eram capazes de reconhecê-lo como Chocolat e não como Rafael Padilla?

Desta fase de conscientização deve-se citar a sequência em que o personagem visita um “show étnico”, na verdade, um zoológico de humanos. Um choque de realidade. Reconhece-se ali, igual aos “exóticos africanos”. Na visão dos visitantes curiosos, eles não passavam de animais primitivos. Neste momento, um dos africanos em exibição revolta-se com a sua presença e o hostiliza. Talvez em sua língua dissesse não precisar do falso olhar de superioridade de alguém que não se percebesse como eles. Ele não deveria estar ali, integrando e apoiando aquele circo de horrores.

Cabe ressaltar, os tais shows tiveram o seu apogeu entre as décadas de 1890 e as de 1930. Além de entretenimento, esses espetáculos serviam como propaganda e justificativa da colonização das terras dos povos considerados inferiores e primitivos. Usava-se também o argumento de que fariam parte de um estudo das diferentes etnias. Além disto, entre outras teses, explicariam que o negro africano seria o elo biológico entre o homem branco ocidental e o macaco. Nestas exposições viam-se homens, mulheres, idosos e crianças de diversas etnias (africanos, indígenas ou esquimós) enjaulados em espaços imitando seus ambientes e tribos de origem. Já decadente, em 1958 foi realizada em Bruxelas a última exposição deste tipo. Esta representava o que na época se chamou de “vilarejo congolês”. Não resistiu às críticas e fechou em pouco tempo. Ainda sobre este assunto pode-se citar como referência o filme “A Vênus Negra”, de Abdellatif Kechiche, onde é apresentada a trajetória da sul-africana Saartje Baartman, conhecida pela alcunha de a “Vênus Hotentote”.

Voltando a Chocolat, já no ápice de sua conscientização, ele tenta se desvincular da imagem consagrada do palhaço. Ele quer mostrar àquela França que é capaz de representar Otelo. Ele quer ser Rafael Padilla, ator, ser humano. Até, então, os papéis de negros eram representados por atores brancos com os rostos pintados de negro. Mas isso merece ser visto no filme. É uma bela e triste sequência. Entretanto, aí reside a dúvida. Não haveria, além da busca pela aceitação, uma busca pelo embranquecimento?

Sobre aquela característica do teatro do século XIX, fica aqui como curiosidade e uma ideia para um próximo artigo, a análise da “Cabana do Pai Tomás”, novela exibida pela Rede Globo, nos idos de 1969 e 1970. Nesta o ator Sérgio Cardoso, caracterizado como negro, interpretava o personagem título. Tratava-se de uma história inspirada em um original norte-americano. Mas Ruth de Souza, indicada por Cardoso, mesmo sendo hostilizada pelos outros membros do elenco, conseguiu ser a primeira protagonista da televisão brasileira.

São histórias que se repetem e atravessam séculos. Falar de racismo nos dias de hoje nem sempre é fácil, principalmente quando muitos levam para o lado do deboche, da banalização.

Recomendo o filme “Chocolate”, que através de uma linguagem acessível, com boa produção e atuação dos atores Omar Sy e James Thiérrée, nos apresenta um homem emblemático: Rafael Padilla.

J. Campos

Barueri, 06-12-2016

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma Primeira Reflexão Sobre o Lagartixa Literária

Em todas as tradições xamânicas os animais são vistos como arquétipos, símbolos de energias que existem e que podemos encontrar e manifestar dentro de nós. E como arquétipos energéticos, cada pessoa tem seu “Animal de Poder”, “Animal Negro”, “Animal Dourado” e seu “Animal Alado”, que correspondem às características que aquela pessoa necessita desenvolver, aprender e manifestar em si, em determinado momento de sua vida.

Todos nós possuímos um Animal do Poder e apenas um. No contexto de cura do Grande Espírito ele representa nosso ego e características da nossa personalidade. As personas (máscaras) que usamos, nossas habilidades conhecidas e aquelas a que ainda não tivemos acesso.

A sabedoria existente em um animal específico, não está necessariamente ligada a sua aparência ou aos preconceitos e crenças criados pelo homem, e sim ao seu poder natural.

No xamanismo, a lagartixa representa otimismo, adaptabilidade, regeneração, sonhos, renovação e transformação.

As lagartixas podem subir paredes – inclusive de vidro – e até andar sobre tetos, graças à uma força intermolecular que elas possuem, estabelecidas pelas cerdas existentes em suas patas.

Outra curiosidade é que algumas espécies apresentam capacidade de camuflagem, como os camaleões. Em outras espécies, as lagartixas comunicam-se entre si através de ruídos – o que não é muito comum entre lagartos.

Como Animal de Poder a lagartixa nos remete à capacidade de adaptabilidade, ou seja, o xamã que se adapta a qualquer lugar ou situação. Também relaciona-se à regeneração, pois a lagartixa regenera a sua cauda de maneira surpreendente, caso ela a perca. Neste caso, simboliza o xamã que combate as influências de espíritos libertinos, e sempre após um combate espiritual o xamã possui a capacidade de recuperar sua energia vital.

Fonte: http://www.xamanismoancestral.com.br/artigos/animais_sagrados.html (acesso 12-11-16 – ligeiramente modificado)

Papoulas, Gaivotas e Trens: O Teatro de Roldan-Roldan

 

 

O teatro de R. Roldan-Roldan tem a mesma força, dramaticidade e humor de seus romances, contos e poesias. Roldan-Roldan é um escritor que escreve por paixão. Em suas obras vemos, bebemos, respiramos, sentimos e absorvemos a literatura enquanto arte e indagação, não apenas como puro entretenimento. Seus textos têm vida, têm alma. Através de uma atmosfera densa e poética, ele nos apresenta seus personagens, pelos quais nos apaixonamos rapidamente. E, numa constante busca e resgate, ele compartilha conosco as marcas do seu passado. Um passado trazido da Europa, da África e outro vivido no Brasil. Marcas fortes, às vezes dolorosas, ácidas, outras de puro amor e contemplação.

Este artigo vem trazer algumas considerações a respeito da leitura de duas peças teatrais do escritor: “As Loucas Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio” e “As Papoulas de Constantinopla”.

Em “As Loucas Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio” temos um desfile de personagens bem característicos do mundo roldaniano. Misteriosos, questionadores. Cada um deles ligado a uma expressividade do desejo corporal, da sensação de existir, às lembranças do passado, ao exercício da beleza, ao desconhecimento do tempo e do espaço, à natureza e à lei dos homens. Viajam em direção a Zirpiak, a última fronteira. Lá também encontramos o alter ego do autor. Trata-se de David Haize, o escritor-personagem que pegou aquele trem aleatoriamente e agora viaja para o fim do continente, um destino desconhecido onde vive loucas aventuras. E é através de seus olhos que nos defrontamos com um vasto painel habilmente construído por Roldan-Roldan. A peça, que descobriremos que é uma peça dentro da peça, se desenvolve num ritmo e movimento constantes de pessoas e situações. Além disso, o trem é misteriosamente seguido por um bando de gaivotas. Que relação elas estabelecem com o trem e seus misteriosos personagens? O que eles, gaivotas e personagens, esperam encontrar em Zirpiak?

Difícil? Não, Roldan-Roldan é mais acessível do que muitos autores que se lê por aí.

Já em “Papoulas de Constantinopla” temos um prisioneiro político condenado à morte, em vias de ser executado. Apesar de ser-lhe dada a chance de poder se arrepender, ele prefere morrer por seus ideais. No único ato da peça, desenvolvida em quatro cenas, recebe no cárcere a visita da mãe, da esposa, do juiz, da Morte e do Pai. De estilo mais condensado e, por isto mais dramático e rigoroso do que “ As Gaivotas…”, “Papoulas de Constantinopla” nos proporciona momentos, ao mesmo tempo intensos e sublimes.

Não há uma referência clara a tempo e espaço e, portanto, podemos transcender a história para qualquer época e, por que não, a nossa? Aliás, o despojamento e a concisão dos textos de Roldan-Roldan, assim como a carga erótica e as questões sociais e políticas são marcas registradas e consagradas deste autor.

Em “Papoulas de Constantinopla”, com exceção dos diálogos da Morte e do Pai, a mãe, a esposa e o juiz tentam convencer o preso a abrir mão de seus ideais e, assim, obter perdão e salvar a sua vida. Entretanto, ele está firmemente disposto a morrer pelo que é, pelo que acredita. Convicção, teimosia, fanatismo, solidez de caráter, frieza? O texto de Roldan nos dará as pistas.

Roldan-Roldan mistura realismo e surrealismo. Todavia, seus textos e histórias não se perdem em caminhos tortuosos por isto, nem inebriam ou ficam restritos à superfície. Ele nos traz um mundo próprio, fantástico, marginal, cosmopolita, lírico, sem concessões. Como já escrevi em outros artigos, é necessário ter a coragem de romper com as obras mastigadas, deglutidas, ruminadas e vomitadas na boca do leitor para poder apreciar Roldan-Roldan. Vencida esta etapa, é fácil tornar-se fã de sua literatura. Nas palavras do próprio autor: “…. Não se exorcizam fantasmas transcrevendo. Mas transfigurando. Penso que esta premissa se aplica a quem quer fazer literatura. Ou arte em geral. ”

Considerações sobre outros excelentes textos teatrais “Jaulas (Subsolo)” e “O Ato – Foder é Vermelho” serão realizadas posteriormente em outro artigo. Atualmente a obra de Roldan-Roldan pode ser encontrada em seu blog, sebos, livrarias e de forma digital e impressa pelo site da Amazon.

J. Campos

Barueri, 07-11-2016