Destaque

Entre Copos d’água e Desmaios

Quando Clóvis decidiu, por vontade própria, morar na casa de repouso, Mário já vivia ali há cerca de cinco anos. Depois de um esbarrão no corredor, um “oi” aqui e um “como vai?” ali, não demoraram a fazerem amizade. Tinham muito em comum. Eram viúvos, avôs e solitários dentro de seus núcleos familiares.

No caso de Clóvis, fora a filha com marido, filhos, cachorro e dois gatos quem se mudara para sua residência. No entanto, em pouco tempo, ele se transformou no hóspede indesejado na própria casa.

Aparentemente, sofrera menos com a passagem do tempo, ao passo que Mário parecia ter carregado o mundo nas costas. Cada qual, a sua maneira, havia abandonado ou sublimado sonhos e desejos ao longo de suas vidas em troca de aceitação e dependência afetiva. No entanto, a convivência entre ambos produzira um verdadeiro milagre. Tornaram-se mais alegres e saudáveis.

Ao perceber o resultado, a filha até insistiu para que ele voltasse a morar com ela.

– Não, você tem a sua família… Estou bem, quero ficar aqui, por enquanto.

– Pai! Todos nós te amamos. Volte a morar conosco. Seu lugar não é aqui.

– Preciso de sossego…

Abraçaram-se longamente e se despediram.

Três filhas. Rute, a caçula, esforçava-se mais que as outras para demonstrar afetividade. Sim, ele conhecia muito bem cada uma de suas crias.

Ela lecionava matemática numa dessas escolas caras de gente rica. O marido engomadinho era proprietário de uma loja de automóveis. Com a ajuda da ciência, depois de várias tentativas, colocaram filhos gêmeos no mundo. Terríveis, chatos, insuportáveis! Clóvis lamentava, mas queria distância dos netos adolescentes.

Casal moderno, decolado, não se cansavam de buscar ascensão social. Frequentemente ofereciam jantares e festas para amigos, conhecidos, potenciais clientes e sócios. Não desperdiçavam uma oportunidade.

Gostavam de viajar e de consumir. Davam a impressão de terem dinheiro sobrando, mas não pagavam nada para morarem no imóvel de Clóvis. Gente folgada!

As outras filhas possuíam um medo exagerado de que ela herdasse tudo sozinha. As brigas eram constantes entre elas. Nem suspeitavam da surpresa que lhes preparava em relação à herança.

Rute fora chamada pelo diretor da casa de repouso. Assunto urgente! Ela se assustara. Quase batera o carro durante o percurso, tamanho o desespero. Nem avisou as irmãs. A casa! A casa! A casa! O estômago revirava.

A secretária a acalmou de imediato.

– Ele está bem! Bem até demais, ironizou. Espere aqui, vou chamar o seu Gilberto para conversar com a senhora.

A secretária apontou displicente uma mesinha com café, chá e biscoitos. Saiu.

Não havia nada mais a fazer, além de esperar. Sentou-se num sofá ao lado de um rapaz, sem cumprimentá-lo.

– Oi! Eu sou João, filho do Mário.

– Prazer…

A imagem da casa não lhe saía da cabeça. Ela despendera ao longo dos anos muito trabalho para tentar convencer o pai a deixar-lhe o imóvel. Puxara o saco e se fizera de boa à exaustão. Não era justo perdê-lo agora. As irmãs que se ferrassem.

Olhou para o moço e torceu o nariz. Lembrou-se que o tal de Mário era amigo de seu pai.

– Sabe do que se trata?

– Não, não me adiantaram nada. Deve ser alguma bobagem. As pessoas daqui adoram fazer tempestade em copo d’água.

A mulher apenas balançou a cabeça afirmativamente.

Nesse instante, surgiu o seu Gilberto, o diretor da casa de repouso, visivelmente estafado. Convidou-os a entrarem em sua sala e não fez rodeios, foi direto ao assunto:

– Precisamos tomar algumas decisões urgentes. Seus pais estão mantendo um relacionamento homossexual em meu estabelecimento.

Depois de um olhar de “eu não entendi”, a ficha caiu. Rute soltou um gritinho e simulou um desmaio. Rapidamente, o rapaz tentou reanimá-la. O diretor apenas franziu o cenho.

João estranhou, mas depois achou engraçado. Uma onda de contentamento meio que lhe percorreu o rosto. Depois de quinze anos de solidão, seu velho finalmente resolvera namorar. Com certeza era isso que o estava deixando com um aspecto melhor. Ficara mais falante, menos enrugado. Nossa! Até ganhara uns quilinhos. Quem diria?!

Rute continuava tonta, mas pegou o copo d’água que a secretária lhe oferecia.

Aquilo era um sonho, um pesadelo, uma piada. Imaginem só! O seu pai tendo um caso com outro homem! Ele gostava de mulher, pois sempre tivera fama de mulherengo! Que absurdo! Como um homem daquela idade, pai e avô se tornaria gay de uma hora para outra? Fez cara de nojo. Gordo, careca e barrigudo! Usava uma barba horrorosa e ainda havia aquelas sobrancelhas grossas. Como um homem daqueles despertaria desejo em outro homem? Ridículo!!!!

– Que brincadeira de mau gosto! Como pode me fazer perder meu tempo à toa? Nunca poderia pensar que o senhor, seu Gilberto, faria um papel desses!

O diretor bocejou impaciente. Apontou para a janela. De lá poderiam constatar com os próprios olhos uma cena peculiar do dia a dia.

O casal caminhou em câmara lenta. João torcia para que fosse verdade e Rute por um desagradável engano. Um jardim foi-se revelando aos poucos. Por lá passeavam algumas figuras joviais e falantes, outras tristes e com o olhar perdido em algum lugar do passado. Havia aqueles que precisavam de apoio para caminhar ou da ajuda das enfermeiras e assistentes para realizarem atividades simples. Naquela manhã ensolarada, quem não participava da aula de dança, caminhava sem preocupação pelo jardim.

Os dois homens estavam abraçados, sentados num banco observando o que acontecia ao redor. Mário apoiava a cabeça no ombro de Clóvis. Conversavam algo, serenos. Num dado momento se entreolharam e seus lábios se tocaram num beijo apaixonado.

Rute deixou o copo d’água cair no chão.

J. Campos

Barueri, 05-07-2018

 

Quando Zarpa o Navio de Tânger?

David Haize

Quando Zarpa o Navio de Tânger?

Ibn Battuta

o sábio

grande viajante de Tanjah

diga-me

a que horas sai o próximo barco de Tânger?

meu irmão quer partir

para a América do Sol

virar guerrilheiro

conhecer Angelopoulos e Kieslowski

e ganhar algum dinheiro

por que quer ele fugir?

se seu único crime é apenas ser

filho de um anarquista apátrida?

amado menino tanjaoui

puro como o pai

que culpa tem ele?

vem mano vem

vem ouvir a Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach

antes de pegar o barco de Caronte

vem voltar para se curar da infância

diga-me Ibn Battuta

quando sai o próximo navio para Tânger?

29-09-21

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Sopa à Luz de Uma Vela

David Haize

Sopa à Luz de Uma Vela

Receita

1 tomate

1 cebola

1 dente de alho

1 folha de louro

1 dúzia de pés de galinha

1 pitada de sal

1 colher de óleo

1 pedaço de pão

1 pai

1 filho

1 outro filho

1 mãe

forte serena discreta

remendando com fios celestes o dia a dia

e sem palavras agradecendo a Deus

por ela ter conseguido colocar comida na mesa

nessa mesa com uma vela

– falta luz elétrica por falta de pagamento –

trêmula chama da esperança

sobrevivendo ao ranger cotidiano

03-06-21

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De Falo em Flor

David Haize

De Falo em Flor

Passados os dias de furor

selvagem esplendor

roídos pelo Tempo

quando o falo em flor fala mais alto

e fustiga a razão

passada a estação

dos nardos e papoulas dançando o cio

quando o desassossego e a turbulência

travam as vísceras

lasso de ilusões remendadas

exausto

miro o alvo celeste

à procura de céus invertidos e constelações rebeldes

e na busca inglória

acoplo palavras à alma conectada

na ingênua esperança de reviver a alva

primitivo alvor

seco agora de magia e graça

como quando criança contava sete estrelas

e colocava um espelhinho sob o travesseiro

para refletir meu sonho

antes de acordar

para o que achava não ser o real

realidade doce-amarga

com sabor de chá verde e hortelã

03-06-21

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Emprego na Pandemia

David Haize

Emprego na Pandemia

Ele

Ela

Ele

Isso e puta é a mesma coisa.

Ela

Não é a mesma coisa.

Ele

É a mesma coisa que dar para macho em troca de dinheiro.

Ela

Eu não vou dar para macho.

Ele

Serão centenas ou milhares de machos te vendo.

Ela

Tomara haja milhares de machos me vendo. Seria sinal de que estaria ganhando algo para remediar a situação.

Ele

Puta também quer bastantes clientes para ganhar grana.

Ela

Pare de me chamar de puta. Nenhum homem vai me tocar. Esses homens vão apenas me observar pela internet.

Ele

Milhares de machos olhando tuas tetas, tua bunda e tua boceta.

Ela

Eu não vou mostrar a xota. Estarei de tanga e não vou tirar a tanga.

Ele

Vão te oferecer mais dinheiro para você tirar.

Ela

Mas não vou tirar.

Ele

Puta com pudor.

Ela

Pare de me chamar de…

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Ovo Quente

Ovo quente

Ela sorriu com os próprios pensamentos, enquanto colocava uma pitada de sal no ovo cozido com a gema mole.

Comentou alguma coisa sobre os filhos e outra sobre o que pretendia fazer no almoço de domingo. Discreta, mas um pouco ansiosa, deu uma olhada no relógio da parede.

O marido já engravatado comia uma torrada com manteiga, enquanto folheava a página de esportes do jornal.

A campainha tocou. Ele deu um salto assustado da cadeira.

– Deixa que eu atendo.

Saiu apressado da cozinha.

Sentada, saboreando o seu café da manhã, mas de orelha em pé, tentou reconhecer a voz do visitante, até ouvir o marido gaguejar:

– Já falei para você não aparecer aqui a esta hora!

O Escritor Roldan-Roldan Entrevista o Escritor David Haize

R.Roldan-Roldan Writer (novels, short stories, theatre, poetry) Brazil

O Escritor Roldan-Roldan Entrevista o Escritor David Haize

RR

Como você se sente com 38 livros publicados?

DH

Sinto-me satisfeito por ter construído uma obra, embora, como todo escritor que se preze, não estou satisfeito (pelo menos totalmente) com meus livros. Por outro lado, sinto-me frustrado por não ser reconhecido.

RR

Ao que você atribui o fato de não ter sido reconhecido até agora?

DH

Não estou na mídia, nem no meio acadêmico. E não escrevo livros comerciais. Estou remando contra a maré.

RR

O que você considera um livro comercial?

DH

Aquele escrito com o único intuito de agradar ao grande público – se é que existe um grande público de leitores.

RR

Sua obra, embora de teor surrealista, aborda temas e situações que não podem ser qualificados de populares. Em suas páginas encontramos a margem da sociedade. São seres excluídos por causa da etnia, de deficiência física ou…

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Black Angel: O Vírus e o Poder da Persistência

R. Roldan-Roldan é o tipo de escritor que escreve compulsivamente e a cada publicação, sempre fiel ao seu estilo, nos brinda com textos inteligentes, irreverentes, reflexivos e imersos na alma humana.

Foi neste contexto de início do ano de 2020, além dos desafios e as incertezas trazidas pela pandemia da Covid-19, dos desvarios e incompetência de um pseudo líder e da crise econômica, que Roldan-Roldan nos apresentou o seu mais novo lançamento: “O Enigma do Black Angel”.

Os contos de seu 38º livro não retratam a pandemia, mas retratam a maioria de suas vítimas, aquelas pessoas quase sempre ignoradas, esnobadas e à margem da sociedade. Os personagens de “O Enigma de Black Angel”, são aqueles seres bem resolvidos consigo mesmos ou os excluídos, seja economicamente, seja culturalmente. Por serem o que são, ferem a falsa moralidade de certas camadas sociais preocupadas com o dinheiro, não com a vida. Difícil não traçar um paralelo entre as histórias do livro e a nossa realidade, pois, esperava-se que o novo coronavírus proporcionasse mais demonstrações (e elas existem!) de solidariedade, de empatia. Entretanto, nos entristece perceber a existência de pessoas as quais se dedicam, de forma gratuita, a provocar e a desprezar o ser humano.

Na definição do autor, seus contos representariam “narrativas onde o surrealismo invade o registro realista. Bukowski dialogando com Fellini”. Desta fusão, aliada ao estilo roldaniano (a busca da identidade, o erotismo, a metalinguagem e o surrealismo), surge a força de “O Enigma do Black Angel”.

No conto “O Gigolô Honesto”, um escritor recebe uma espécie de proposta indecente. Uma senhora de grandes posses oferece-lhe ajuda financeira, a fim de que ele possa se dedicar com afinco ao seu trabalho literário. Em troca, ela quer a sua companhia. “Quanto à moral burguesa, que se dane. Estou acima dela. Jactância? Sim, e daí?”

Em “Sonho Salpicado de Pesadelos”, o escritor, numa caminhada onírica, revê entes queridos, como também seres grotescos que povoam e infernizam o atual panorama brasileiro. Há uma mistura de passado e presente, de impressões trazidas por uma viagem existencial e a construção de uma crítica lúcida dos acontecimentos recentes.

Em “Pau de 80 anos”, David Haize, o alter ego de Roldan-Roldan, em tom desbocado, descontraído e, às vezes, chocante, no melhor estilo roldaniano, relata o seu amor por uma garota. Ao longo do texto, ele nos fala da velhice irrequieta e cheia de desejos de um homem, em contraposição à mediocridade e falsa moralidade que tem tornado as nossas vidas mais frias e sombrias. “Ainda bem que o meu caralho de 80 anos não dói e funciona. Graças a Afrodite. Ou aos exus”.

Fortemente autobiográfico, em “A Náusea e a Torre”, David Haize depara-se com morte, reencontros e com a fuga.

“Entrei numa cabine. Vomitei. Defequei. Depois de evacuar pela boca e pelo ânus tudo o que sentia, limpei-me e dei descarga.”

O reencontro com velhos amigos não trouxera a alegria e o prazer desejados. As pessoas mudam ou, talvez, o distanciamento e o tempo nos beneficiem com a vivência e a lucidez necessárias para enxergarmos o que não víamos durante a juventude.

Daí veio a fuga para Haize. Para uma torre? Ou seria um farol? Lembranças e saudades de pessoas e lugares que verdadeiramente foram importantes. E, assim, o autor define a sua viagem: “Quando mentes e corações envelhecem, nada melhor do que refugiar-se numa torre onde a imaginação solta as amarras e voa em direção ao âmago do ser”.

Desta forma, a narrativa de R. Roldan-Roldan flui ao longo dos outros contos, mostrando-nos personagens fortes, reais e questionadores, longe dos clichês romantizados e das mensagens edificantes.

J. Campos
Barueri, 23-05-2020

O Coringa, a Eartha Kitt e o Penico

Abriu a porta mecanicamente como sempre o fazia. Lá fora a chuva persistia, aumentando a sensação de frio, a quantidade de lama e o cheiro de podridão que nunca desaparecia. Ela vivia numa favela, num tempo em que as pessoas chamavam favela de favela, à beira de um rio poluído e ao lado de um depósito de lixo.

A menina cobriu-se com o xale rasgado da mãe que, acordada, permanecia deitada. Preveniu-se calçando as botas velhas e fedorentas do pai. Ele saíra meia hora antes, pois fora aliviar a cabeça num boteco qualquer, após mais uma discussão com a mulher, grávida do décimo filho.

Seus irmãos mais novos dividiam uma cama num lado da casa, enquanto ela e os mais os velhos se esparramavam em colchões velhos pelo chão de terra batida. Apanhou o penico sob a cama da mãe, cujas atenções neste momento se voltavam para os cabelos piolhentos da Ritinha.

– Joga atrás do barraco da Raimunda!

– Ela não gosta, mãe.

– E daí? Que reclame…

Arrepiou-se toda ao sair. Não pensava em nada porque sempre que o fazia a mãe ralhava:

– Pensando que nem madama, sua boba? Vai trabalhar, traste!

Dona Raimunda já a surpreendera jogando fezes perto do seu barraco. A mulher era brava. Melhor não arriscar. Desviou-se para outra direção e deu de cara com dois policiais que conversavam com o Mané, um sujeito bem falante e exagerado nas gírias e nos gestos.

Os oficiais gargalharam ao verem aquela figura patética enrolada em trapos, segurando um penico cheio de fezes, com duas lombrigas ainda vivas se remexendo. Alguns minutos estática, talvez uma eternidade. Mané ficou incomodado. Entrou em seu barraco, pegou um pacote e o entregou aos policiais que foram embora aos berros de tanto rir.

Ela continuou andando de cabeça baixa. Tinha a intenção de esvaziar o vasilhame no rio. Se os habitantes da cidade jogavam o seu cocô no rio, por que ela não podia fazê-lo? O rio era de todos, pensava. Todavia não podia deixar que a mãe suspeitasse que ela havia pensado, senão ralharia:

– Pensando na vida que nem madama? Boba, caipira!

Parou novamente ao reconhecer à distância o pai que mijava numa moita, perto de uma casa mais ou menos isolada das demais. Ele certamente lhe bateria, caso a encontrasse ali àquele horário. Rápida, escondeu-se atrás de um barraco feito de papelão e lataria velha.

Percebeu que o homem olhava cauteloso de um lado a outro. Parecia nervoso, hesitante, até que bateu à porta. Era o barraco da Safira.

Ela achava a Safira a mulher mais bonita da favela. Sempre maquiada, mas sem exageros. Cabelos bem cuidados e roupas simples e elegantes. Feminina, inteligente e divertida. Sua mãe dizia que ela era uma vagabunda, uma vadia, uma puta. Que era um homem sem vergonha vestido de mulher. Mas como Safira podia ser homem? Ela não entendia.

Safira sorriu, disse um “pois, então, entra”. Seu pai, encabulado, deu mais uma olhada ao redor e entrou.

Sua mãe era feia, falava muito palavrão e não gostava de ninguém. Só sabia ficar barriguda e encher a casa de criança chorona e remelenta. Também obrigava todos os filhos a pedirem esmola na rua. Dinheiro, eu quero dinheiro, nada de balinha, frutinha ou pedaço de pão, ordenava. Quando aceitavam alguma comida, pois tinham muita fome, ficavam com muito medo de apanhar.

Durante as andanças pela cidade, gostavam de ficar em frente a uma loja de móveis e eletrodomésticos para assistirem um pouco de televisão. Não conseguiam ver muita coisa, pois eram expulsos pelos vendedores.

– Saiam daqui pirralhos! Estão espantando a freguesia.

Daquele tempo, do pouco que vira, lembra-se de alguns episódios de Batman. Aquele Batman interpretado pelo ator Adam West. Nas brincadeiras com outras crianças, ela queria sempre ser a Batgirl, da atriz Yvonne Craig, e meter alguns sopapos no Coringa, do Cesar Romero. Mas riam dela. Com aquele cabelo e com aquela cor, ela só poderia ser a mulher-gato, mas a mulher gato interpretada pela Eartha Kitt. Anos mais tarde, ela seria surpreendida, num dia como este, cantarolando, enquanto ouvia Champagne Taste, na voz de Eartha Kitt, tocada numa velha vitrola que fora de Safira. Agora, ela só sabia chorar, pois queria ser a Batgirl e sair por aí em sua motocicleta batendo no Coringa.

Não sabe por que o fez, mas despejou as fezes e as lombrigas ainda vivas e asquerosas na porta da casa da Viviane, uma das meninas da favela que mais zombavam dela.

A menina voltou para casa, todos dormiam. Num canto percebeu que havia um monte de fezes cobrindo metade de uma lombriga aparentemente morta. Provavelmente um dos irmãos, não tendo encontrado o penico, não pestanejou e se aliviou onde dava.

Pegou uma colher de pedreiro na caixa de ferramentas do pai e recolheu a sujeira.

Ao abrir a porta, acordou dona Joana:

– Fecha essa porta, menina!

– Vou esvaziar o penico, mãe.

– Ainda não foi, sua preguiçosa? Você não vale nada, é o que eu sempre digo, não vale nada. Anda, peste! Fecha essa porta! Tá fazendo muito frio.

 

J. Campos

Barueri, 30-03-2020

Un tazón de café con leche y pan de Tánger

Já abordei em outras ocasiões a literatura roldaniana recente. Desta vez senti a necessidade de voltar um pouco no tempo e escrever algumas linhas a respeito do livro “Ao Sul do Desejo”, publicado por R. Roldan-Roldan, em 1997.

Mesmo decorridos cerca de 20 anos entre a publicação do livro mencionado e “O Rimbaud Negro”, percebe-se a solidez e a fidelidade estilística ao longo dos anos deste autor apaixonado por sua arte e sua profissão.

Quando escrevo sobre R. Roldan-Roldan, penso naquele garoto vivendo no exílio com seus pais, refugiados da ditadura franquista, apátridas nos arredores de Tânger, uma cidade repleta de histórias, segredos e fantasias. Ele era aquele garoto que comia com repleta satisfação uma tigela cheia com pequenos pedaços de pão amanhecido, umedecidos em leite e café, como se fosse um delicioso mingau. “Eu tinha fome”, disse-me o escritor. Imagino o garoto catando ferro velho para vender e conseguir alguns trocados ou ainda juntando restos de madeira para trocar por doces envelhecidos na padaria local. Penso naquele garoto que cresceu maravilhado com o mundo do cinema e da literatura e, como escrevi em outra ocasião, vejo a imagem do menino percorrendo as ruas estreitas e misteriosas da Casbá, num tempo em que isto não era um hábito de nenhum estrangeiro, adulto ou criança.

R. Roldan-Roldan é dono de uma escrita rápida, cinematográfica, com pinceladas autobiográficas. Seus textos não são rasos, pois revelam sensibilidade, lirismo e apreço pelo ser humano mais simples e à margem da sociedade. Em determinados momentos demonstra-se raivoso, inconformado com as injustiças, outras é ousado, sarcástico e até chocante.

Com a voz na primeira pessoa, sua narrativa assume um ar misterioso e, às vezes, obscuro. Todavia, cada peça, cada detalhe está bem encaixado. Quando pensamos saber de tudo, somos maravilhosamente surpreendidos no final.

“Ao Sul do Desejo” é uma coletânea de características viscerais, constituída por cinco contos bem casados.

No conto “Retrato de Gerente em Noites de Verão” acompanhamos o relacionamento de uma funcionária, novata na empresa, às voltas com o seu misterioso gerente. Um homem focado e dedicado durante o horário comercial, mas que se transforma no “lobisomem das 18 h”, após o expediente. Somos envolvidos por um jogo de sedução, erotismo, dúvidas e renúncia.

“Referências: Brumas/Papoulas” é um texto com tons extremamente poéticos que mostra a solidão do narrador-personagem que passa uma noite em uma casa vazia, mas cheia de lembranças e fantasmas. A perda dos entes queridos, a tristeza, o amargor e a realidade de estar só em um lugar após a morte de quem mais se amava: os pais. “Não há música como em outras histórias. Há do sepulcro o silêncio. Do caos a inércia”.

Em “Bakartasun”, um homem resolve passar a véspera de Natal em um quarto de hotel, uma noite solitária, dedicada à “catarse das lágrimas”. Aliás, no idioma basco, bakartasun significa solidão. Mais do que uma simples palavra, exótica para os nossos ouvidos, remete às questões sobre identidade. Consigo, o personagem carrega um toca-fitas e “Fitas onde cada canção teria a função específica de fazê-lo chorar por um motivo determinado”. Aqui Roldan-Roldan fala novamente dos seus pais, de exílio e da obstinação de algumas pessoas diante dos obstáculos.

As lágrimas lavam a alma e dão forças ao ser humano para continuar a travessia. Mas diferente de Clarice Lispector, Roldan-Roldan não procura ou promove uma elevação espiritual de seus personagens. Tanto “Referências: Brumas/Papoulas” quanto “Bakartasun” são marcados pela intensidade e emoção das palavras, mas, ao contrário do que possa parecer, não caem em clichês dramáticos.

“Ashton” no início, para um leitor desavisado sobre o mundo roldaniano, dá a impressão de querer levá-lo à frugalidade de um “Mad Max”. Entretanto, é apenas uma leve impressão. Um homem desmemoriado percorre uma estrada deserta, ao fundo a paisagem de um cerrado: “Sol alto, forte. Caminhava no meio da pista vazia. Passos lentos, regulares.”

Ali naquela introdução talvez tivesse algo de “Paris, Texas”. Todavia, o personagem de Wim Wenders caminhava mais rápido e irregularmente. As letras de Roldan-Roldan vão em outro sentido.

Em certo momento, o andarilho ganhou a alcunha de “O Homem da Estrada”, dado pela “Rainha do Lixo”. Interrogado, só conseguia repetir a frase “eu sou escritor”, em várias línguas. Ninguém o compreendia. Em seu caminho, ainda encontrará a “Anfitriã” e se verá num baile à fantasia, bem ao estilo Luís XVI. Altamente simbólico e reflexivo. Neste texto, quando já esquecemos as notícias jornalísticas, Roldan-Roldan revira a nossa memória e nos joga na cara um fato que ocorreu com os catadores de lixo em Recife, em 1997. Retempera e o transforma em literatura.

Roldan não é cruel, mas no meio dos seus textos, com toques surrealistas, às vezes nos deparamos com as reminiscências da vida real.

Já o conto que dá título ao livro “Ao Sul do Desejo” nos traz um escritor que, na busca por inspiração, frequenta um bar, o “Bar das ilusões perdidas”. Sentado a uma mesa, em meio a seus rascunhos, observa as personagens que por ali passam.

Naquele ambiente envolve-se, de modos distintos, primeiro com Daniel e depois com Deborah. Paralelamente, começa a receber cartas misteriosas e anônimas de alguém.

“Nunca soube a verdade. Pergunto-me se a verdade, neste caso, existe. O que é verdade num jogo?”

Perdido, confuso no meio daqueles três seres, a coisa piora, quando aparece um quarto elemento. O escritor apenas sabe dos seus próprios sentimentos. Na verdade, até os próprios sentimentos o traem. Em determinado momento ele evoca Stefan Zweig, como se estivesse vivendo algo como em “A Confusão de Sentimentos”.

Trata-se aí nada mais que uma homenagem à literatura. Para o personagem roldaniano pode até haver a confusão de sentimentos, mas a maneira como isto é trabalhado pelos dois escritores é diverso.

Zweig é calmo, minucioso e cozinha em fogo brando, abusando de especiarias finas. Existe a dúvida e o medo, então, ele evoca Shakespeare. Roldan-Roldan é rápido, explosivo, as minúcias não são simétricas, certinhas. Nele também há dúvida e medo, mas temperados com temperos fortes e cozidos na fornalha. Apesar disto, ele evoca Zweig e as tormentas se tornam calmaria.

Roldan-Roldan é um escritor eclético, as referências de filmes, diretores de cinema, artistas plásticos, músicas e cantores, entre outros refletem a sua admiração e seu entusiasmo pelo mundo das artes. Admiração e conhecimento que ele compartilha com seus leitores. Saber ou não sobre eles não compromete a leitura, mas o saber nos ofereceria a oportunidade de nos aprofundarmos um pouco mais na mente e na genialidade deste escritor.

Recomendo a leitura de “Ao Sul do Desejo”, principalmente àqueles que têm sede de boa leitura. Assim como eu, desfrutem de um saboroso café com leite e pão.

 

J. Campos

Barueri, 19-08-2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atalhos

Trilhas encantadoras, caminhos pedregosos, estradas empoeiradas, encostas lamacentas. São os atalhos que encurtam ou, por sorte ou azar, alongam as distâncias, desafogam os congestionamentos, aliviam a ansiedade, alegram e influenciam existências. Alguns, edulcorados, servem apenas para se mostrar às pessoas o quanto se é feliz na fachada. Outros nos fazem ser bem aceitos pelo grupo ao qual pertencemos. Há aqueles que garantem a invisibilidade e propiciam esconderijos aconchegantes, enquanto seus hóspedes fogem aos olhares críticos. Seguros, porém, tensos, vivem num mundo de cautela e isolamento interior. Se um dia a arrogância e a inveja chegarem, os infelizes podem até ganhar confiança e, por pura maldade, apontarem o dedo para os incautos.

Cada pessoa escolhe ou é levada a escolher a zona de conforto mais apropriada para viver as suas fortalezas, medos e aquela sede incontrolável de coisas e poder.

Recorrer a mentiras e golpes baixos. Fingir não conhecer pessoas e lugares. Não assumir os próprios erros. Há uma gama variada de becos úmidos e escuros pelos quais as pessoas se enveredam a fim de chegarem, no menor tempo possível, a alamedas charmosas e bem localizadas.

Ao poupar pernas e pés, ganha-se o tempo e o fôlego suficientes para se dedicar a outras atividades, vivências e problemáticas.

No trabalho, os atalhos auxiliam a alcançar níveis de qualidade e eficiência. Entretanto, a jornada pode conduzir à uma direção contrária. A falta de competência e planejamento, como também o uso de meios e fins pouco nobres, comprometem qualquer tipo de iniciativa.

Na ânsia por status, sucesso e bem-estar, os caminhos longos e enfadonhos são descartados. Entretanto, nem sempre a urgência favorece as escolhas. Inevitavelmente, depois de tomada a decisão, surgem as dúvidas. Foi gratificante deixar de percorrer aquelas belas e extensas paisagens? Gostou da ideia de trocar a visita às pirâmides do Egito pelos parques da Disney? Sentiu-se bem em descartar as ideias e soluções viáveis por resultados imediatos e duvidosos? Não dá para evitar os dilemas trazidos pelos atalhos. Não dá para mudar o passado ou retornar às estradas abandonadas. Todavia, as experiências tais como as de fuga, arrependimento e fracasso são complementos indispensáveis para o aprendizado do viver.

Ainda somos influenciados pelas grandes emoções, caras feias e carrancudas, ameaças, cobranças, chantagens, ironias, palavras mal colocadas, desavenças, xingamentos e autopiedade. A jornada não pode ser outra. Enganamos o tempo. Vivemos o tédio. Abusamos do ócio. Mergulhamos no exagero. Valorizamos a superfície. Evitamos os dissabores. Não enxergamos a nós próprios… não enxergamos a vida.

Não adianta recorrer a mantras, clichês de autoajuda ou a pensamentos edificantes, se não existir atitude e vontade de viver plenamente.

 J. Campos

Barueri, 21-05-2016