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Entre Copos d’água e Desmaios

Quando Clóvis decidiu, por vontade própria, morar na casa de repouso, Mário já vivia ali há cerca de cinco anos. Depois de um esbarrão no corredor, um “oi” aqui e um “como vai?” ali, não demoraram a fazerem amizade. Tinham muito em comum. Eram viúvos, avôs e solitários dentro de seus núcleos familiares.

No caso de Clóvis, fora a filha com marido, filhos, cachorro e dois gatos quem se mudara para sua residência. No entanto, em pouco tempo, ele se transformou no hóspede indesejado na própria casa.

Aparentemente, sofrera menos com a passagem do tempo, ao passo que Mário parecia ter carregado o mundo nas costas. Cada qual, a sua maneira, havia abandonado ou sublimado sonhos e desejos ao longo de suas vidas em troca de aceitação e dependência afetiva. No entanto, a convivência entre ambos produzira um verdadeiro milagre. Tornaram-se mais alegres e saudáveis.

Ao perceber o resultado, a filha até insistiu para que ele voltasse a morar com ela.

– Não, você tem a sua família… Estou bem, quero ficar aqui, por enquanto.

– Pai! Todos nós te amamos. Volte a morar conosco. Seu lugar não é aqui.

– Preciso de sossego…

Abraçaram-se longamente e se despediram.

Três filhas. Rute, a caçula, esforçava-se mais que as outras para demonstrar afetividade. Sim, ele conhecia muito bem cada uma de suas crias.

Ela lecionava matemática numa dessas escolas caras de gente rica. O marido engomadinho era proprietário de uma loja de automóveis. Com a ajuda da ciência, depois de várias tentativas, colocaram filhos gêmeos no mundo. Terríveis, chatos, insuportáveis! Clóvis lamentava, mas queria distância dos netos adolescentes.

Casal moderno, decolado, não se cansavam de buscar ascensão social. Frequentemente ofereciam jantares e festas para amigos, conhecidos, potenciais clientes e sócios. Não desperdiçavam uma oportunidade.

Gostavam de viajar e de consumir. Davam a impressão de terem dinheiro sobrando, mas não pagavam nada para morarem no imóvel de Clóvis. Gente folgada!

As outras filhas possuíam um medo exagerado de que ela herdasse tudo sozinha. As brigas eram constantes entre elas. Nem suspeitavam da surpresa que lhes preparava em relação à herança.

Rute fora chamada pelo diretor da casa de repouso. Assunto urgente! Ela se assustara. Quase batera o carro durante o percurso, tamanho o desespero. Nem avisou as irmãs. A casa! A casa! A casa! O estômago revirava.

A secretária a acalmou de imediato.

– Ele está bem! Bem até demais, ironizou. Espere aqui, vou chamar o seu Gilberto para conversar com a senhora.

A secretária apontou displicente uma mesinha com café, chá e biscoitos. Saiu.

Não havia nada mais a fazer, além de esperar. Sentou-se num sofá ao lado de um rapaz, sem cumprimentá-lo.

– Oi! Eu sou João, filho do Mário.

– Prazer…

A imagem da casa não lhe saía da cabeça. Ela despendera ao longo dos anos muito trabalho para tentar convencer o pai a deixar-lhe o imóvel. Puxara o saco e se fizera de boa à exaustão. Não era justo perdê-lo agora. As irmãs que se ferrassem.

Olhou para o moço e torceu o nariz. Lembrou-se que o tal de Mário era amigo de seu pai.

– Sabe do que se trata?

– Não, não me adiantaram nada. Deve ser alguma bobagem. As pessoas daqui adoram fazer tempestade em copo d’água.

A mulher apenas balançou a cabeça afirmativamente.

Nesse instante, surgiu o seu Gilberto, o diretor da casa de repouso, visivelmente estafado. Convidou-os a entrarem em sua sala e não fez rodeios, foi direto ao assunto:

– Precisamos tomar algumas decisões urgentes. Seus pais estão mantendo um relacionamento homossexual em meu estabelecimento.

Depois de um olhar de “eu não entendi”, a ficha caiu. Rute soltou um gritinho e simulou um desmaio. Rapidamente, o rapaz tentou reanimá-la. O diretor apenas franziu o cenho.

João estranhou, mas depois achou engraçado. Uma onda de contentamento meio que lhe percorreu o rosto. Depois de quinze anos de solidão, seu velho finalmente resolvera namorar. Com certeza era isso que o estava deixando com um aspecto melhor. Ficara mais falante, menos enrugado. Nossa! Até ganhara uns quilinhos. Quem diria?!

Rute continuava tonta, mas pegou o copo d’água que a secretária lhe oferecia.

Aquilo era um sonho, um pesadelo, uma piada. Imaginem só! O seu pai tendo um caso com outro homem! Ele gostava de mulher, pois sempre tivera fama de mulherengo! Que absurdo! Como um homem daquela idade, pai e avô se tornaria gay de uma hora para outra? Fez cara de nojo. Gordo, careca e barrigudo! Usava uma barba horrorosa e ainda havia aquelas sobrancelhas grossas. Como um homem daqueles despertaria desejo em outro homem? Ridículo!!!!

– Que brincadeira de mau gosto! Como pode me fazer perder meu tempo à toa? Nunca poderia pensar que o senhor, seu Gilberto, faria um papel desses!

O diretor bocejou impaciente. Apontou para a janela. De lá poderiam constatar com os próprios olhos uma cena peculiar do dia a dia.

O casal caminhou em câmara lenta. João torcia para que fosse verdade e Rute por um desagradável engano. Um jardim foi-se revelando aos poucos. Por lá passeavam algumas figuras joviais e falantes, outras tristes e com o olhar perdido em algum lugar do passado. Havia aqueles que precisavam de apoio para caminhar ou da ajuda das enfermeiras e assistentes para realizarem atividades simples. Naquela manhã ensolarada, quem não participava da aula de dança, caminhava sem preocupação pelo jardim.

Os dois homens estavam abraçados, sentados num banco observando o que acontecia ao redor. Mário apoiava a cabeça no ombro de Clóvis. Conversavam algo, serenos. Num dado momento se entreolharam e seus lábios se tocaram num beijo apaixonado.

Rute deixou o copo d’água cair no chão.

J. Campos

Barueri, 05-07-2018

 

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Um Filme, um Livro e a Falta de Educação

O filme americano “Conrack” (1974), do diretor Martin Ritt, protagonizado por Jon Voight, baseia-se no livro “The water is wide”, de Pat Conroy (1945-2016). Nesta obra, Conroy relata a sua experiência como professor em uma escola localizada na ilha Daufuskie, Carolina do Norte, em 1969.

Entre as obras de Pat Conroy, algumas adaptadas para o cinema, devemos mencionar ainda “O príncipe das marés”, “Guardiões da honra”, “Os senhores da disciplina” e “O grande Santini”.

Em “The water is wide”, somos apresentados a população local da época, constituída por uma comunidade de negros pobres. O único homem branco que vivia ali era um pequeno comerciante.

Conroy chega a escola, uma construção bastante precária, entusiasmado. Lá é recebido pela Srª Scott, interpretada pela atriz Madge Sinclair, que torce o nariz. Como se não bastasse ser um homem, era um homem branco.

O nome Conrack surgiu da dificuldade que os alunos sentiam ao pronunciarem seu nome. Isolados naquele lugar, é natural que a língua tendesse para uma dialetação.

Em breve diagnóstico, o professor logo constatou que seus alunos apresentavam séria defasagem em relação aos conteúdos escolares, inclusive analfabetismo numa turma que deveria estar mais adiantada.

A diretora era adepta dos castigos corporais e das humilhações, como forma de educar e controlar os alunos. Marcada pelo auto preconceito, a Srª Scott parecia acreditar que era inútil dar esperanças para aquelas crianças e adolescentes. O futuro delas estava na ilha, na pobreza e na ignorância. Em sua visão, eles não necessitavam aprender mais do que já sabiam. Precisavam ser disciplinados e se conformarem com a sua origem, pois eram lentos e preguiçosos. Mas ao longo do filme, percebemos que ela apenas fora vencida pelo sistema.

Todavia, Conroy é aquele tipo de professor que ama a profissão e acredita no potencial transformador da educação. Para ele, aquelas crianças mereciam um ensino de qualidade, como quaisquer outros alunos. Seu papel era o de fazê-las enxergar e entender que existia um mundo além da ilha.

Suas aulas eram dinâmicas e divertidas. Suas brincadeiras e estilo brincalhão possuí um sentido pedagógico. Assim, eles tinham aula ao ar livre, ouviam música clássica, assistiam a filmes, faziam educação física, aprendiam a nadar e a escovar os dentes. Em certa ocasião, Conroy os levou para conhecerem a cidade de Beaufort e participarem das comemorações do Dia das Bruxas. Nesta sequência, são bastante simbólicas a saída da ilha, a travessia de barco e a chegada ao “mundo civilizado”.

O Sr. Skeffington, supervisor da escola, interpretado pelo ator Hume Cronyn, mora na cidade de Beaufort. Um homem racista e conservador, o qual, portanto, não compactua com os ideais, nem com a metodologia pouco convencional de Conrack. Para ele não havia necessidade de mudança. Em uma cena, ameaça os alunos com um chicote, quando vê que o professor perdera o controle da classe.

A experiência de Conroy ocorreu numa época agitada. A Guerra Fria estava no auge, os jovens desafiavam os padrões estabelecidos, transgrediam. O movimento hippie e a contracultura horrorizavam os conservadores.

Em setembro de 2018, um episódio às vésperas das eleições no Brasil, envolveu o livro “Meninos sem Pátria”, do escritor Luiz Puntel. O livro, cuja primeira edição foi apresentada em 1981, é adotado, há vários anos, pelas escolas como leitura paradidática. Mas neste, motivados pelo clima polarizado e alimentados por boatos e notícias falsas, um grupo de pais de uma escola particular, a Santo Agostinho, no Rio de Janeiro, exigiu a retirada do livro da lista de leituras obrigatórias da 6ª série. Foram prontamente atendidos. O recuo da escola certamente esteve ligado a uma pressão financeira.

Segundo aqueles pais, o livro faria apologia ao comunismo e apresentaria uma visão distorcida em relação ao período histórico retratado e aos militares.

Baseado em fatos reais, o livro, um romance infanto-juvenil, relata, através da narrativa do filho mais velho, a história de sua família. O pai se torna perseguido político por conta do teor de algumas reportagens que fizera. Desta forma, a família é obrigada a seguir para o exílio. Inicialmente vão para o Chile. Depois, com a ascensão de Pinochet, fogem para a França.

Com linguagem e enredo desenvolvidos de forma simples e adequada a faixa infanto-juvenil, parece-me que a única ameaça do livro é a de tirar os jovens do terreno fácil da alienação.

O meu gosto e prazer pela leitura foram despertados na década de 1970, principalmente, através das coleções de livros da editora Ática, “Vaga-Lume”, da qual “Meninos Sem Pátria” faz parte e de outra, a “Para Gostar de Ler”. Instalada a polêmica, não pude evitar a curiosidade e a vontade de ler o livro e relembrar a minha adolescência na época da ditadura. Ao mesmo tempo, pesou na minha decisão a minha formação como professor de português e a necessidade de embasar a minha opinião sobre este episódio. Um episódio que, por assim dizer, marca o início de uma triste volta ao passado.

Uma frase bastante lembrada durante esta polêmica foi a do poeta judeo-alemão Christian Johann Heinrich Heine (1797-1856): “Aqueles que queimam livros, acabam cedo ou tarde por queimar homens”. Nada mais emblemático, quando refletimos sobre as lições deixadas pela história da humanidade.

Na década de 1970, em plena ditadura, vivíamos como que isolados numa ilha. Com pouca disponibilidade de informações, ingênuos e sabe-se lá mais o quê. Sabíamos o que acontecia no País, mas não conhecíamos a riqueza dos detalhes. Aprendíamos a ler, escrever, interpretar e a ter uma visão crítica sobre os livros que os professores conseguiam nos indicar. No pátio da escola faziam-nos cantar o hino nacional e algumas vezes uma daquelas músicas da dupla Dom e Ravel.

“Meninos Sem Pátria” a meu ver não induz a ideologia nenhuma. O livro apenas fornece elementos para que, com a mediação do professor, discuta-se um período histórico pelo qual passou o País. Interpretações equivocadas e emocionais decorrem da preguiça, da falta de estudo e de leitura.

Ao proibir um livro e/ou incentivar alunos a vigiarem, gravarem a fala do professor com a intenção de censurar e retaliar, perde-se uma das principais funções da escola, que é a de ensinar, compartilhar e discutir sobre a diversidade.

Voltando a “Conrack”, o professor foi vencido pelo sistema, representado no filme pela figura do personagem de Cronyn. Manter aqueles negros, aquela comunidade na ignorância seria a forma de perpetuar o modelo de exploração escravocrata. Seria manter uma mão de obra barata, ignorante e submissa presa à terra e à dominação vigente. Apesar disto, mesmo que tenha sido por pouco tempo, o professor conseguiu deixar uma semente em seus alunos, uma esperança, uma vontade de sair da ilha.

 

J. Campos

Barueri, 18-11-2018

 

 

O “Rimbaud Negro”: O Poema Nascido entre o Deserto e a Savana

 

Em 2017, R. Roldan-Roldan lançou o romance “Zirpiak, Última Fronteira”, agora em 2018 chega com dois livros de poesia. São eles: “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” e “Petit Léxique Poétique”. Este último escrito em francês.

Neste artigo vou me ater ao livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”, onde o autor presta uma homenagem a Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891), poeta inquieto, controverso, mas que influenciou muitos escritores que vieram depois. Rimbaud é bem conhecido pelo relacionamento amoroso e avassalador que teve com Paul Verlaine, mas também pelo estilo agressivo e inovador de sua poesia. Precocemente, deixou de escrever aos dezenove anos e iniciou uma longa viagem pela Europa, Ásia e África. Retornou para a França aos 37anos, onde morreu devido às complicações de uma gangrena na perna. Embora careça de profundidade e de um roteiro fraco, o filme “Eclipse Total de uma Paixão (Total Eclipse)”, da diretora polonesa Agnieszka Holland, fornece um retrato do poeta em questão.

O livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” não se resume a uma mera homenagem. Rimbaud permeia a trajetória, as buscas, as dúvidas e as conquistas roldanianas. O protagonista aqui é o próprio Roldan. Em livros anteriores ele vestiu o alter ego David Haize, agora mistura as próprias experiências a do poeta francês.

No poema “Rimbaud no inverno”, Roldan se lembra que não tinha a liberdade de Rimbaud, mas desenvolvia as suas atitudes e espírito crítico com aquilo que conseguia extrair do meio em que vivia: “[…] Não fugi não entrei na legião estrangeira/ Tinha que trabalhar para ajudar os meus/ Mas o desprezo pelos valores burgueses é o mesmo […]”.

É claro que para falar de Roldan-Roldan não é suficiente relacioná-lo apenas a Rimbaud. Mas as pistas e referências podem ser encontradas no conjunto de sua obra. Ele não é um escritor convencional. Ele não trabalha a poesia fácil e medrosa. Em todos os gêneros literários que pratica, foge do óbvio e de dogmas comerciais, assim como daquele estilo “fino, elegante e mediano” que consagra e deixa na zona de conforto alguns autores da nossa atualidade. Seus textos e poemas não são forjados em oficinas de escrita literária, com hora marcada e cartão de ponto. O tempo que dedica a seu trabalho é longo e árduo. Sua dedicação não é controlada por regrinhas e etiquetas preestabelecidas. Os textos roldanianos transpiram literatura. Talvez esteja aí o seu erro. Nestes tempos tecnológicos e individualistas em que vivemos, fica difícil transpor determinadas barreiras e convenções a fim de ganhar a simpatia dos leitores. Gosto de uma frase da escritora Ligia Fagundes Telles, que li em entrevista dada por ela em 2007 para a Folha de São Paulo: “Quem está em processo de extinção é o leitor, que lê pouco ou não entende o que lê. Já o escritor anda aparecendo por toda parte. Ainda bem, estão aí todos lutando, escrevendo, as prostitutas fazendo suas memórias. Que façam, que escrevam, tudo é válido. Mas leiam!”

O poema “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”, que dá título ao livro, é desenvolvido em três vozes. Nele conhecemos um homem negro nascido em Benim, na cidade de Cotonou. Filho de mãe agudá e pai francês, apaixonado pela poesia de Rimbaud, inicia uma peregrinação rimbaldiana. Além de fatos e lugares, testemunha os protestos de maio de 1968, conscientiza-se de sua negritude e de suas origens, além de ser deportado dos Estados Unidos por participar das manifestações pelos direitos civis. Nada mais roldaniano impossível e não podia ser diferente.

Escrever é natural para Roldan-Roldan. Ele não exagera ou floreia. Cada palavra, cada verso se apresentada de forma bem dosada. Seu mundo, embora flerte com o onírico, não é idealizado. As personagens não são mornas, nem assexuadas. Elas brigam, comem, bebem, vão ao banheiro e fazem sexo. Assim, ele resume em um dos versos: “o poeta que não vai a extremos não sabe o que é poesia”.

No poema “Entre Exílios”, um cavaleiro errante apresenta um dos estigmas roldanianos: “Como bala jamais retirada da carne/ Carrego o exílio […]”. Em “Infância”, o cavaleiro errante nos apresenta o Roldan menino: “[…] Quando o Sultão Shariar adormece/ Sheherazade conta histórias ao menino pobre/ Que sonha com doces finos […]”. Em “Sexo”, ele cultiva a paciência e resiste à espera: “[…] Longo jejum vontade premente / Rangem as dobradiças enferrujadas exasperadas / […]”. Em “Superioridade”, ele levanta o tom, fala de sua integridade e de suas revoltas: “[…] Por que não assumirias a tua superioridade / Se só acreditas no amor pelo ato / […] Se percebes que toda palavra deve ser renovada pela ação / […]”. Em “Desolação”, fala do passado e de suas perdas: “[…] Há um desfilar de ausências / Mortos amados que ensaiam patética farândola / […]”.

A obra de R. Roldan-Roldan é muito madura e consolidada. Seus textos, sejam em forma de artigos, romances e poesias, são profundos, humanistas e delicados. Entretanto, “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” pertence a uma nova fase literária do autor que se iniciou com o romance “As Três Viagens de David Haize”, em 2015. É um assunto que pretendo desenvolver em outros artigos e trabalhos, porém, percebo os textos roldanianos atuais carregados de mais intensidade e urgência.

Para quem gosta de boa poesia, recomendo o livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”.

J. Campos

Barueri, 22-09-2018

O Monstro da Ilha

A ilha nada mais era do que o pico de uma enorme montanha que se erguia das profundezas do oceano. Bastante íngreme e acidentada, era rodeada pelo mar bravio que dificultava a entrada e impedia a saída.

O terreno rochoso não permitia o crescimento de vegetação. A água potável chegava através das tempestades, mas não tendo onde se acumular, escorria pelo penhasco até o mar, engrossando as ondas traiçoeiras.

Há vários meses, o avião ali caíra deixando cinco sobreviventes. Agora restava apenas um que passava os dias andando de um lado a outro, fraco, faminto, desesperado.

Ele tinha esperanças de que seria devorado pelo monstro, um enorme lagarto, que repousava no meio da ilha, ao sabor do calor do sol. Mas o monstro o ignorava. Imenso, gigantesco, majestoso não sentia nenhum interesse naquele ser esquálido, malcheiroso, cheio de feridas.

Para salvar a sua vida, ele mesmo empurrara com suas próprias mãos os companheiros na boca do monstro. Ele os iludira, traíra e enganara. Oferecera-os como alimento para saciar a fome do réptil. Suspirava, pois carregava nas lembranças os rostos de incredulidade e os gritos de terror de cada um deles clamando pela vida. Ainda podia sentir o gosto de sangue quente em sua boca.

O monstro saciado preservava a sua vida em troca das outras vidas fracas e sem esperança. Vidas indefesas e ofegantes com sérias mutilações que morreriam de qualquer jeito.

Ele sentia muita fome. Todavia, faltavam-lhe destreza e força para descer o penhasco e chegar até perto do mar. Talvez lá embaixo houvesse algum tipo de alimento. Peixes, aves, ovos.

Ele não entendia por que a criatura não se interessava por ele. Por que o monstro não o devorava como fizera com os outros?

Sob quatro montes de pedras, marcados por cruzes também feitas de pedras, repousavam os ossos de seus companheiros. Não sobrara ninguém. Só ele e o monstro. Não havia mais nada para comer.

As ondas arrebentavam no penhasco e aquilo que parecia ser o som distante de aves aumentavam o seu desespero. Um grito, ele pensou ter ouvido um grito.

J. Campos

Barueri, 18-08-2018

A Academia de Vampiros e o fast food

No ambiente de trabalho, durante uma conversa informal e descontraída, devo ter comentado algo sobre o tipo de leitura que me agradava. Não que eu seja ortodoxo, reacionário, preso a um só modelo de autor ou temática. Considero-me bastante eclético. Quando chegamos a determinadas fases, onde eu incluo esta, na qual estou cursando uma licenciatura em letras, preferimos manter determinado foco. Assim, no momento, estou interessado em outro tipo de literatura. No entanto, eis que sou desafiado a ler o primeiro volume da saga “Academia de Vampiros: O Beijo das Sombras”, de Richelle Mead.

Neste romance, Lissa Dragomir é uma princesa de uma sociedade de vampiros denominados Moroi. Rose Hathaway é a sua melhor amiga, mas ela pertence a outra categoria, os Dampiros, seres meio vampiros, meio humanos. Hathaway tem como missão se tornar uma guardiã e proteger Lissa dos Strigoi. Estes últimos são vampiros poderosos e corrompidos que precisam do sangue Moroi para manter sua imortalidade. O livro começa com as duas amigas sendo trazidas pelos guardiões de volta para a escola São Vladimir, após uma fuga de dois anos. A partir daí, a história lança os dilemas adolescentes numa trama juvenil vampiresca, com pitadas de romance, aquela coisa de alunos populares e impopulares, um pouco de futilidade e egoísmo, rebeldia com e sem causa, mistério, amizade, etc. Nada é novo ou revolucionário, mas desperta um interesse razoável.

Depois de alguma insistência bem-humorada, aceitei a dica literária. Não fiquei empolgado, devo confessar. Já possuía no meu currículo a experiência de ter assistido ao primeiro filme daquela trilogia, a tal de “Crepúsculo”. Não nutria, portanto, muitas expectativas em relação a obra de Richelle Mead. Certas “licenças poéticas” que se fazem atualmente destas pobres criaturas, os vampiros, são decepcionantes. Mas só aprendemos e mudamos os nossos preconceitos, quando nos dispomos a conhecer e a nos expor às diferenças. Como interessado em literatura, sei que devo investir numa visão abrangente das diversas manifestações de escrita que temos a nossa disposição.

Grosso modo, o livro de Richelle Mead é apenas de entretenimento, pois não apresenta a expressão artística e a estética que consagraram os clássicos e a literatura contemporânea mais densa. Até aí, tudo bem.

São livros, com todas as suas qualidades e defeitos, voltados para um lucrativo nicho de mercado editorial. Atendem a uma demanda de leitores ávidos por uma leitura fácil, ágil, linear, sem grandes elucubrações e servidos no melhor estilo fast food. São feitos simplesmente para entreter. Para ler e esquecer, mesmo quando têm alguma pincelada de mensagens edificantes. São válvulas de escape.

Ler o “Academia de Vampiros”, é como ir a um “Macdonald’s” ou qualquer outra rede de lanches ou de comidas rápidas. O cliente pede um lanche grande, enorme, gorduroso e cheiroso. Sorridente, o funcionário lhe serve o lanche com todo aquele queijo cheddar, hambúrguer, uma mísera rodela de tomate e uma folha de alface, além de mostarda, maionese e catchup escorrendo por entre as diferentes camadas. E a batata? De preferência ela deve gritar quando o cliente faminto lhe lançar um olhar: Me come! Me come! Me come! O atendimento tem que ser rápido, padronizado e as opções de lanches devem ser poucas para não complicarem a vida e a cabeça dos pagantes. Ao redor, um ambiente limpo, moderninho, americanizado, regado a palavras e expressões em inglês duvidoso. O preço deve ser caro, mais caro que um bom prato de comida saudável. Depois, a pessoa come de boca cheia e com um sorriso de orelha a orelha.

De vez em quando, não faz mal nenhum saborear um delicioso sanduíche, acompanhado de batatas fritas quentinhas e crocantes e beber um copo enorme cheio de refrigerante. No entanto, um prato com arroz, feijão, ovo frito e almeirão refogado também é muito gostoso.

Li o “Academia de Vampiros” como se tivesse ido àquela lanchonete comer o tal sanduíche. Comi sem culpa e por prazer. Entretanto, não saciei a minha fome. Senti falta de algo mais nutritivo.

As boas leituras estimulam e desenvolvem as habilidades relacionadas à aquisição de conhecimento (pensamento, linguagem, percepção, memória, raciocínio, etc.), contribuem para levar a pessoa a se colocar no lugar do outro e a entenderem melhor o mundo a sua volta. Elas prestam auxílio na formação de indivíduos capazes de buscarem soluções criativas para problemas cotidianos, além de fornecerem embasamento para discussões éticas. Bons leitores conseguem diferenciar opinião de argumentação e fogem das armadilhas das discussões superficiais e apelativas.

Uma pessoa adquire o hábito de ler gradualmente, com textos e autores que mais o agradam e despertam a sua atenção. Se livros como os de Richelle Mead desempenham este papel entre os jovens e os não tão jovens, não podem ser desprezados. Se, além de estimular, forem capazes de catapultar o leitor para leituras, mundos e reflexões mais densas, melhor ainda.

J. Campos

Barueri, 09-04-2018

Curriolas, Trouxas, Muquifos, “pé-pé-pé…pé-ré-pé-pé”, Joguinho Ladrão!!!

Durante anos, apesar da leitura de fragmentos e textos esporádicos, sentia o interesse por me aprofundar na obra do escritor João Antônio Ferreira Filho (1937-1996).

Entre uma leitura aqui e outra ali, os livros de João Antônio ficaram para trás. E o tempo passou.

Até que percorrendo uma dessas redes sociais, deparei-me com um comentário sobre o escritor que entre outras palavras empurrava um “datado e ponto final”. Como?! Estranhei.

Motivado pela opinião pouco amistosa do internauta, a leitura do livro de contos “Malagueta, Perus e Bacanaço” (1963) tornou-se uma prioridade.

A análise a seguir limita-se a algumas reflexões sobre o conto homônimo.

“Malagueta, Perus e Bacanaço” foi o livro de estreia do escritor João Antônio. Dada a qualidade literária e à inovação em relação ao tema e à linguagem (ele trazia para o texto o modo de falar das ruas e dos jogadores de sinuca), conquistou público e crítica. Como consequência conseguiu simultaneamente dois prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos), entre outras premiações.

Houve uma adaptação do texto para o cinema na década de 1970. Trata-se de “O jogo da vida” (1976), dirigido por Maurice Capovilla. O roteiro foi de responsabilidade de Capovilla, além do próprio João Antônio e de Gianfrancesco Guarnieri. O filme é estrelado por Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Maurício do Valle. Na trilha sonora, músicas de João Bosco e Aldir Blanc.

No conto, o leitor acompanha os três personagens, apelidados como Malagueta, Perus e Bacanaço ao longo de uma noite. São três malandros, que, entre outras atividades ilícitas, ganham a vida nas mesas de sinuca através da prática de trapaças e conluios. Motivados pela falta de dinheiro (“Estavam os três quebrados, quebradinhos…”), pelo pouco movimento e pela ausência de trouxas/otários em um salão localizado no bairro paulistano da Lapa, o Celestino, decidem sair dali. Percorreriam as ruas, bares, botequins e os salões de jogos de sinuca à procura de indivíduos que eles identificassem como trouxas, otários, coiós, mocorongos, papagaios enfeitados e cavalos-de tetas.

“Os três tacos, direitinhos como relógios, levantariam no fogo do jogo um tufo de dinheiro. Tinham a noite e a madrugada. Virariam São Paulo de pernas para o ar.”

Embora malandros, existia regras e certa lealdade entre eles. Há uma passagem do texto na qual somos apresentados à história de Bacalau. Era um malandro que, de forma descarada, ganhara o dinheiro de Sorocabana, um trabalhador da estrada de ferro. “Para que trouxa quer dinheiro?”. Entretanto, Bacalau, por egoísmo ou esquecimento, não oferecera nenhum mimo para a curriola. Quando precisava, ele sabia que podia contar com o grupo. Dois dias depois, através de denúncia anônima, foi preso pela polícia.

A história se passa numa São Paulo da década de 1960, onde ainda circulavam bondes pela cidade. O filme transporta os personagens para a década de 1970. Os bondes sumiram, todavia, todo aquele painel sociológico apresentado por João Antônio ainda se fazia presente, como também, com certas mudanças e novos acréscimos, ainda persiste nos dias de hoje.

Em volta das mesas de sinuca e dos botequins, além dos jogadores, existia um mundo por onde circulavam os indivíduos menos favorecidos, trabalhadores, mascates e operários advindos das classes sociais mais baixas e das periferias, assim como crianças e adolescentes lutando pela sobrevivência. Outros tipos compunham esse universo: homossexuais, estudantes de escola noturna, cafetões, prostitutas, pedintes, batedores de carteira, traficantes, policiais corruptos, etc.

“Gente. Gente mais gente. Gente se apertava […], gente que vem ou gente que vai.”

A história contada não é amena. Os personagens não são pitorescos, engraçados ou caricatos. A pobreza e a miséria tanto daquela época como a de agora ainda tem elementos desconhecidos, mascarados. Não se restringem a lugar específico ou datado. Os seres que aí habitam, no entanto, não estão conformados, paralisados. Eles lutam, sofrem e se irritam com aquele mundo que os prende, mas que é o único que conhecem e que lhes oferece alguma coisa em troca.

No conto, João Antônio não descreve, entretanto, uma luta de classes, ele apenas nos apresenta uma realidade vivida por certa parcela da sociedade, muitas vezes invisível. Não há julgamento ou idealização.

No filme o personagem Perus apresenta outras características que o conduzem ao questionamento da desigualdade social e da exploração no trabalho. Em “Malagueta, Perus e Bacanaço”, ele é retratado como um jovem de dezenove, “fugido do quartel”, havia saído de casa devido a problemas de relacionamento com o padrasto. Em “O Jogo da Vida” ele é um homem inconformado com o trabalho penoso numa fábrica de cimento, que abandona tudo para tentar a sorte no jogo.

Há uma ausência de humor na trajetória dos três personagens no texto. Em “O Jogo da Vida”, Capovilla se vale um pouco desse recurso na composição de Malagueta, talvez para criar uma dinâmica da qual o conto não necessite.

Parece-me que a noite descrita em “Malagueta, Perus e Bacanaço” é mais opressiva do que em “O Jogo da Vida”. Entretanto, em ambos, a feiura de tudo e todos remete para a nostalgia, a beleza e a poesia.

J. Campos

26-02-18

O que você esperava que fosse acontecer?

– O que você esperava que fosse acontecer?

Silêncio. Mirianês permaneceu apática diante da pergunta da Velha Senhora. O que poderia dizer-lhe? Aliás, não esperava mesmo por muita coisa daquele encontro feito às pressas.

No momento, não sabia definir bem o que estava sentindo, talvez uma mescla de vergonha e raiva. Correra, humilhara-se e se desespera na busca de documentos, pessoas e lugares, até chegar àquela mulher.

Os olhos secos e sem brilho da mais jovem tentavam inutilmente buscar alguma distração no ambiente ao seu redor.

– Esperava que nos abraçássemos e chorássemos juntas? – perguntou a Velha Senhora, exibindo um leve sorriso de intimidação e menosprezo nos cantos dos lábios.

Palavras iam e poucas voltavam. Mirianês esforçava-se o quanto podia para suportar o estranho desenrolar daquela conversa. Emitia monossílabos e risos sem graça. Para complicar, não havia nada de muito interessante que pudesse chamar a sua atenção por ali. Lembrou-se de repente da atriz Debbie Reynolds. Por que ela? Por que pensaria nela agora?

Ah, sim! Vira um filme antigo na tv. Ela era a mãe da Carry Fisher, a princesa Leia do “Guerra nas Estrelas”. Nossa! Ficara patética usando um penteado que lembrava, mesmo que vagamente, o da personagem do filme. Boba! Boba! O que pretendia com aquilo?

Na mesa ao lado, um grupo de pessoas conversavam animadas. De vez em quando, um homem soltava uma risada um pouco mais alta. No início, a sua voz de locutor de rádio a impressionara. No entanto, à medida que o tempo foi passando, ficara chata, cansativa. Nossa! Como, às vezes, a vida pode ficar difícil!

– Por que agora? Por que me procurou só agora? Achava que eu fosse uma pessoa melhor? Achava que eu também a procurasse? Sinto muito, querida, mas eu não me arrependi do fiz. Faria tudo de novo se fosse preciso.

Mirianês observou que, lá na frente, próximo a entrada, uma garota, atarracada dentro de um short minúsculo, soltara um gritinho, quando um dos rapazes que a acompanhava cochichou algo em seu ouvido. Riram maliciosos, quando ela soltou um “atrevido”.

– Sabe… eu era muito jovem, tinha toda uma vida pela frente. Tinha muito a perder…

O garçom as interrompeu, quando chegou com os cafés.

– Com licença! – disse o homem em tom sério, automático.

– Hum! Adoro café com baunilha – entusiasmou-se a Velha Senhora.

Alguém derrubou um copo. Empolgado, o Homem com Voz de Locutor de Rádio não se conteve e soltou um “uhuuu!!!”, acompanhado de uma sonora gargalhada.

– Pode soar egoísta, mas eu não pensei em você um só instante em todos esses anos. Apaguei a sua existência de minha vida. Aliás, você escolheu um péssimo momento para reaparecer. Tenho coisas mais importantes, mais urgentes para me preocupar nesse momento. Sabe… não me considero uma pessoa ruim por isto. Não sou santa, ninguém é. Somos todos de carne e osso. A vida é curta demais. Eu precisava escolher e escolhi. Eu escolhi o melhor para mim. Apenas uma questão de sobrevivência, querida. A minha sobrevivência!

Uma criança lá no fundo do restaurante começou a gritar e a chorar porque não queria comer o que a mãe lhe oferecia. Deu um tapa na colher cheia que se aproximava de sua boca. Sujou um senhor de óculos da mesa ao lado. A mãe, semblante cansado, fingiu não ver. O moleque gritava, xingava, esperneava. Que chato! pensou Mirianês.

– Por que não pede um pedaço desta torta também, querida? Está deliciosa.

Mirianês lembrou-se que fizera na véspera um enorme bolo de chocolate. Achara uma receita numa revista velha. Uma revista que furtara de um consultório de dentista. Às vezes gostava de cometer pequenos deslizes. Coisas inconsequentes, quase infantis.

Havia imaginado um bate-papo agradável entre as duas. Imaginara que sairiam dali felizes, depois do reencontro. Fariam planos, enquanto se dirigissem até a sua casa. Uma casa pequena, alugada, perdida na periferia da cidade, mais ou menos a três horas de ônibus dali. Mas o conto de fadas transformara-se numa história de terror. Quando voltar, terá que comer o bolo sozinha. E a tubaína? Idiota!!! Burra! Burra!!! Como iria convidar uma mulher chique como aquela para ir à periferia? E de ônibus? Pra comer bolo e tomar tubaína!!! Por que fizera um bolo tão grande?

– Tem muito livrinho, muito filminho e igrejinhas contando histórias como a nossa. Prometem finais felizes, cheios de amor e redenção. Uma droga! Tudo bobagem! Volto a dizer, não me arrependo do que fiz. Não vou comprometer a vida que eu tenho hoje por sua causa. Não me leve a mal, querida. Tenho o meu marido, meus filhos, meus netos. Eu os amo muito. Não há lugar para você em minha vida. Nunca houve.

A mulher mostrou-lhe uma foto. Uma típica família de comercial de margarina. Mirianês não se parecia com os filhos dela. Na verdade, ela também não se parecia em nada com aquela senhora.

– Seu pai não era bonito, mas era ótimo de cama. E eu… muito fogosa naquela época… Você se parece muito com ele… Já foi procurá-lo?

Fez um sinal para o garçom. De repente deu uma imensa vontade de comer aquela torta tão elogiada pela Velha Senhora.

– Consultei o meu advogado. Descobrimos algumas coisas sobre você. Você teve uma passagem pela cadeia, não é? Bem, mas agora tá livre, tá trabalhando e estudando. Eu vi um dia desses um documentário sobre uma mulher, uma ex-presidiária… Acho que vou pedir outro café. Tá muito gostoso!

O garçom trouxe a torta. Uma porção bem generosa.

– Não espere que eu vá me sentir ameaçada por você. Não vou-lhe dar dinheiro algum.

Mirianês ficou com vontade de rever um filme antigo da Debbie Reynolds. Gostava muito de “Tammy and the Bachelor”, traduzido no Brasil como “A flor do pântano”. Ela sempre preferiu filmes antigos e ingênuos. Hoje, depois de uma boa ducha, seria muito agradável rever e ouvir a atriz interpretando a canção tema, que falava de amor e de pássaros cantando.

“I hear the cottonwoods whisperin’ above

Tammy, Tammy, Tammy’s in love

The old hootie owl hootie-hoo’s to the dove

Tammy, Tammy, Tammy’s in love

Does my lover feel what I feel when he comes near?

My heart beats so joyfully

You’d think that he could hear

Wish I knew if he knew what I’m dreaming of

Tammy, Tammy, Tammy’s in love”

Sentia uma grande necessidade de ser transportada para um mundo e uma realidade mais leve, açucarada e feliz.

Observou a Velha Senhora com mais atenção. Muito bonita e elegante. Usava um desses cortes de cabelo moderninhos. A cor parecia um desses loiros da moda e de nomenclatura duvidosa. Ela exalava um perfume enjoativo, mas, provavelmente, caro e de marca. Daqui a pouco, quando terminar de comer o seu pedaço de torta, diga-lhe que conhecera o pai a cerca de três dias. Contaria sobre a conversa que tiveram. Há muitos anos atrás, além de uma gravidez inoportuna, ele presenteara aquela mulher com piolhos, chatos e uma tremenda encrenca perante a família. Foi ele quem sugeriu o nome do bebê: Mirianês. O Miriam veio da mãe dele. E Inês era o nome da Velha Senhora. Fora ele quem entregara a criança para uma mãe adotiva, em troca de dinheiro e de uma nova oportunidade para os dois, cada qual em seu caminho.

J. Campos

Barueri, 23-01-2018

Muito Além de Uma Paixão Silenciosa

O filme “Além das palavras” (A quiet passion, no original), do diretor Terence Davies, estreou nos cinemas brasileiros em 2017. A temática e o estilo ajudam a explicar sobre a sua curta permanência em cartaz e as poucas salas disponíveis para exibição. O filme retrata a biografia da poetisa norte-americana Emily Dickinson (1830-1886).

Dickinson, interpretada pela atriz Cynthia Nixon (mais conhecida por sua participação no seriado “Sex in the City”), é considerada uma das maiores poetisas em língua inglesa. Ela teve uma vida bastante reclusa, conseguindo publicar cerca de 10 poemas num jornal local. O reconhecimento veio depois de sua morte, quando foram descobertos aproximadamente 1800 escritos de sua autoria.

No início do filme somos apresentados a uma jovem corajosa e contestadora. Foi em um seminário puritano para moças que ela se recusou a declarar a sua fé. Algo grave para a época. Consequentemente, desistiu de frequentar tal escola.

A jovem Emily é aquela que escandaliza a pobre tia conservadora, ou ainda, a mulher reflexiva e crítica em suas conversas com a amiga Vryling Bufam, interpretada pela atriz Catherine Bailey. Entre outros elementos, a biografia nos introduz a elementos como: a crítica e o incômodo pela subserviência dos fiéis diante dos preceitos e dogmas cristãos, do papel da mulher naquela sociedade patriarcal e a indignação perante a permanência da escravatura e da deflagração da guerra civil.

A maior parte da história se passa dentro da casa da família e seu jardim. E o diretor vai nos conduzindo cada vez mais para o interior do quarto da poetisa, conforme o filme evolui e a doença e a reclusão consomem a personagem.

A maneira como o diretor escolheu para apresentar Emily Dickinson é delicada. Não há exageros. Ficamos conhecendo a escritora de uma forma interessante. O filme não cai para o lado do documentário nem tampouco do melodrama. É bastante equilibrado. O diretor, em alguns momentos, e, principalmente, no final, em forma de narrativa, se vale da poesia de Dickinson para nos contar um pouco mais sobre ela.

A irmã de Emily, Vinnie Dickinson, interpretada por Jennifer Ehle, é uma pessoa inteligente e ousada, porém ponderada. Ela conseguia entender as aflições da irmã. Já o irmão Austin Dickinson, interpretado por Duncan Duff, evoluíra em relação ao pai, porém não o suficiente para abandonar o machismo e as características patriarcais.

Dickinson nunca se casou. Apaixonou-se por um pastor, Charles Wadsworth, um homem casado. A paixão não concretizada se voltara para alguém que soube reconhecer a qualidade de seu trabalho. Aliás, as suas ligações mais fortes aconteciam com as pessoas que sabiam reconhecê-la, que conseguiam se aproximar de seu mundo.

Dickinson não se isolou simplesmente, pois conservou o desejo de que o mundo reconhecesse o seu talento. Ela sabia que desenvolvia uma poesia de excelente qualidade. Mas ela era muito autêntica, avançada e exigente. Não se entregou à confecção de poesias palatáveis, facilmente consumíveis. Entretanto, o alto nível de exigência a levou para a amargura.

J. Campos

Barueri, 22-05-2017

 

 

Jornal de Domingo

 

Ao ler a edição dominical do jornal “O Estado de São Paulo”, do dia 16/04/2017, um texto do escritor Mário Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010, chamou a minha atenção. Na verdade, o texto foi originalmente publicado pelo jornal espanhol “El País”, sediado em Madrid e fundado em 1976, após o fim do Franquismo. Este divulga também, desde 2013, um site com versão em português.

O artigo tem como título “Ler um bom jornal”. Inicialmente, Vargas Llosa nos conta sobre o critério que adota para estar bem informado. Por hábito, ele prefere as versões “em tinta e papel”, pois, na sua percepção, as versões jornalísticas digitais lhe “parecem mais incompletas e artificiais”.

Devo confessar que possuo um pouco desta característica, pois ter um jornal em papel nas mãos traz um prazer adicional à leitura. Algo, concordo, difícil de explicar. Entretanto, devido ao corre-corre da vida moderna, não se pode dispensar a tela de um computador ou de um smartphone. Pode ser até coisa de gente das antigas, mas, com certeza, estas duas últimas opções não oferecem a mesma magia.

Já logo no início, o autor explica:

“Ler vários jornais é a única maneira de saber quão pouco sérias às vezes são as informações, condicionadas como estão pela ideologia, os medos e preconceitos dos proprietários dos veículos e dos jornalistas e correspondentes. ”

Antes que este trecho seja alvo dos adeptos dos comentários fáceis, superficiais, frívolos e inconsequentes, cabe dizer que a discussão aqui e no texto de Vargas Llosa segue na direção de uma reflexão um pouco mais ampla e elaborada.

Infelizmente, além do evidente e crescente viés subjetivo dos jornalísticos apontado pelo autor, quando a notícia deveria primar pelo objetivismo, clareza e veracidade, já sabemos, por outras fontes de leituras e estudos, que no mundo de hoje o noticiário está recheado de mentiras, meias verdades, boatos e manipulações. A internet, as redes sociais e toda uma cultura e geração, infelizmente, colaboraram para isto. É preciso garimpar se quisermos estar bem informados. Nos dias de hoje, não dá nem para confiar naquelas conversinhas informais que temos com colegas de trabalho ou amigos de longa data.

Após ler seus dois ou três jornais matinais, Vargas Llosa sente-se seguro para analisar, sintetizar e discorrer sobre os assuntos do momento.

Desta forma, ele segue o texto, destrinchando e interpretando: o presidente norte-americano Donald Trump, o russo Vladimir Putin e o sírio Bashar al-Assad. A discussão envolve um bombardeio, forças governamentais, mísseis com gás sarin, uma população desarmada e suas crianças com membros carbonizados, a visão da agonia em meio a suplícios espantosos. Menciona o governo do ex-presidente Barack Obama. Comenta a rivalidade entre reformistas, democratas e terroristas islâmicos diante de um tirano sírio e seus excessos genocidas. Fala do governo autocrático de Putin, da imperícia de Trump e do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Embora fiquemos comovidos, assim como Trump (??!!!!), com a questão síria, ele nos relembra que ocorrem outros conflitos mundo afora, tais como: as carnificinas no Afeganistão, atentados no Paquistão, a desintegração da Líbia, sequestros e massacres organizados pelo terrorismo islâmico na África, os refugiados que se arriscam no Mar Mediterrâneo em direção à Europa, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, o espetáculo de corrupção proporcionado pela empreiteira Odebrecht no Brasil e na América Latina.

Tantas questões. Todavia, a maioria dos leitores de jornais só leem superficialmente a notícia, talvez mal passem pela manchete. Depois, sairão por aí postando comentários sobre aquilo que não leram.

Vargas Llosa da mesma forma que começou, termina o artigo citando o escritor peruano César Vallejo, considerado um dos maiores poetas hispano-americanos do século XX:

““Ler um bom jornal” já não é, como quando César Vallejo escreveu esse verso, sentir-se seguro, em um mundo estável e reconhecível, mas empreender em uma excursão na qual, a cada passo, pode-se cair em “uma jaula de todos os demônios”, como escreveu outro poeta.”

 

O gosto amargo de Chocolate

“Chocolate” (Chocolat, no original), do diretor Roschdy Zem, é uma produção de 2016 do cinema francês, ano em que também estreou nos cinemas brasileiros.

O filme conta a história de Rafael Padilla (Omar Sy), nascido escravo em Cuba, por volta de 1865. Abandonado pelos pais, cresceu nas favelas de Havana até ser vendido para um empresário que o levou para trabalhar na casa da família na Espanha. Aos quinze anos conseguiu fugir e integrar-se a um circo.

Posteriormente, foi descoberto pelo palhaço George Footit (James Thiérrée), quando apresentava-se como Kananga, o canibal africano, num pequeno circo interiorano. Footit precisava se reinventar a fim de sobreviver na cena circense. Quando este assiste ao homem negro, vê ali a oportunidade de criar um número inovador. Os dois tornaram-se, a partir daquele momento, uma dupla famosa. Seus números caracterizavam-se pelo humor pastelão, onde o negro era humilhado e levava tapas e pontapés do branco, arrancando invariavelmente as gargalhadas do público. Nascia, assim, o palhaço Chocolat, o primeiro artista negro de circo a fazer sucesso na França. Esse foi um gênero de humor que consagrou, com algumas variações, artistas como Charles Chaplin, O Gordo e o Magro, Os Três patetas, Chaves e Os Trapalhões.

No decorrer da história, percebemos a dubiedade da relação entre os dois palhaços, a qual reforça a contradição entre a imagem do negro desregrado/irresponsável e o branco equilibrado. Todavia, por trás disto havia outros elementos não aprofundados no filme.

Apesar de clichês, lugares comuns e releituras, a história é muito bem contada e nos oferece alguns motivos para interpretação e reflexão. Podemos enxergar Chocolat pelo lado do pioneirismo (tanto por ele ter sido o primeiro negro a atuar como palhaço, assim como pelo ineditismo do tipo de humor que a dupla apresentava), dos preconceitos e da opressão racista, da sua inconsequência e ingenuidade, da compulsão por jogos e bebidas, de seu sucesso com as mulheres e do fracasso sofrido ao tentar interpretar a peça de teatro Otelo, de Shakespeare. A riqueza temática do personagem e o pouco tempo para contar a história, além da necessidade de tornar o filme acessível para uma maior fatia de público, talvez tenha limitado o espaço destinado às ousadias e experimentações.

Passada a euforia do sucesso, começa a fase de tomada de consciência. Inclusive e, ainda, no auge do sucesso, Chocolat é preso e maltratado na prisão. A partir daí, ele sente a necessidade de compreender, de questionar os preconceitos sofridos, mesmo aquelas pequenas coisas do dia-a-dia que, em seu somatório, se tornam grandes, sofridas e violentas. Por que a cor de sua pele o prendia a um papel de ser inferior, ignorante, selvagem, perigoso e hiper-sexualizado? Por que só eram capazes de reconhecê-lo como Chocolat e não como Rafael Padilla?

Desta fase de conscientização deve-se citar a sequência em que o personagem visita um “show étnico”, na verdade, um zoológico de humanos. Um choque de realidade. Reconhece-se ali, igual aos “exóticos africanos”. Na visão dos visitantes curiosos, eles não passavam de animais primitivos. Neste momento, um dos africanos em exibição revolta-se com a sua presença e o hostiliza. Talvez em sua língua dissesse não precisar do falso olhar de superioridade de alguém que não se percebesse como eles. Ele não deveria estar ali, integrando e apoiando aquele circo de horrores.

Cabe ressaltar, os tais shows tiveram o seu apogeu entre as décadas de 1890 e as de 1930. Além de entretenimento, esses espetáculos serviam como propaganda e justificativa da colonização das terras dos povos considerados inferiores e primitivos. Usava-se também o argumento de que fariam parte de um estudo das diferentes etnias. Além disto, entre outras teses, explicariam que o negro africano seria o elo biológico entre o homem branco ocidental e o macaco. Nestas exposições viam-se homens, mulheres, idosos e crianças de diversas etnias (africanos, indígenas ou esquimós) enjaulados em espaços imitando seus ambientes e tribos de origem. Já decadente, em 1958 foi realizada em Bruxelas a última exposição deste tipo. Esta representava o que na época se chamou de “vilarejo congolês”. Não resistiu às críticas e fechou em pouco tempo. Ainda sobre este assunto pode-se citar como referência o filme “A Vênus Negra”, de Abdellatif Kechiche, onde é apresentada a trajetória da sul-africana Saartje Baartman, conhecida pela alcunha de a “Vênus Hotentote”.

Voltando a Chocolat, já no ápice de sua conscientização, ele tenta se desvincular da imagem consagrada do palhaço. Ele quer mostrar àquela França que é capaz de representar Otelo. Ele quer ser Rafael Padilla, ator, ser humano. Até, então, os papéis de negros eram representados por atores brancos com os rostos pintados de negro. Mas isso merece ser visto no filme. É uma bela e triste sequência. Entretanto, aí reside a dúvida. Não haveria, além da busca pela aceitação, uma busca pelo embranquecimento?

Sobre aquela característica do teatro do século XIX, fica aqui como curiosidade e uma ideia para um próximo artigo, a análise da “Cabana do Pai Tomás”, novela exibida pela Rede Globo, nos idos de 1969 e 1970. Nesta o ator Sérgio Cardoso, caracterizado como negro, interpretava o personagem título. Tratava-se de uma história inspirada em um original norte-americano. Mas Ruth de Souza, indicada por Cardoso, mesmo sendo hostilizada pelos outros membros do elenco, conseguiu ser a primeira protagonista da televisão brasileira.

São histórias que se repetem e atravessam séculos. Falar de racismo nos dias de hoje nem sempre é fácil, principalmente quando muitos levam para o lado do deboche, da banalização.

Recomendo o filme “Chocolate”, que através de uma linguagem acessível, com boa produção e atuação dos atores Omar Sy e James Thiérrée, nos apresenta um homem emblemático: Rafael Padilla.

J. Campos

Barueri, 06-12-2016