Jornal de Domingo

 

Ao ler a edição dominical do jornal “O Estado de São Paulo”, do dia 16/04/2017, um texto do escritor Mário Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010, chamou a minha atenção. Na verdade, o texto foi originalmente publicado pelo jornal espanhol “El País”, sediado em Madrid e fundado em 1976, após o fim do Franquismo. Este divulga também, desde 2013, um site com versão em português.

O artigo tem como título “Ler um bom jornal”. Inicialmente, Vargas Llosa nos conta sobre o critério que adota para estar bem informado. Por hábito, ele prefere as versões “em tinta e papel”, pois, na sua percepção, as versões jornalísticas digitais lhe “parecem mais incompletas e artificiais”.

Devo confessar que possuo um pouco desta característica, pois ter um jornal em papel nas mãos traz um prazer adicional à leitura. Algo, concordo, difícil de explicar. Entretanto, devido ao corre-corre da vida moderna, não se pode dispensar a tela de um computador ou de um smartphone. Pode ser até coisa de gente das antigas, mas, com certeza, estas duas últimas opções não oferecem a mesma magia.

Já logo no início, o autor explica:

“Ler vários jornais é a única maneira de saber quão pouco sérias às vezes são as informações, condicionadas como estão pela ideologia, os medos e preconceitos dos proprietários dos veículos e dos jornalistas e correspondentes. ”

Antes que este trecho seja alvo dos adeptos dos comentários fáceis, superficiais, frívolos e inconsequentes, cabe dizer que a discussão aqui e no texto de Vargas Llosa segue na direção de uma reflexão um pouco mais ampla e elaborada.

Infelizmente, além do evidente e crescente viés subjetivo dos jornalísticos apontado pelo autor, quando a notícia deveria primar pelo objetivismo, clareza e veracidade, já sabemos, por outras fontes de leituras e estudos, que no mundo de hoje o noticiário está recheado de mentiras, meias verdades, boatos e manipulações. A internet, as redes sociais e toda uma cultura e geração, infelizmente, colaboraram para isto. É preciso garimpar se quisermos estar bem informados. Nos dias de hoje, não dá nem para confiar naquelas conversinhas informais que temos com colegas de trabalho ou amigos de longa data.

Após ler seus dois ou três jornais matinais, Vargas Llosa sente-se seguro para analisar, sintetizar e discorrer sobre os assuntos do momento.

Desta forma, ele segue o texto, destrinchando e interpretando: o presidente norte-americano Donald Trump, o russo Vladimir Putin e o sírio Bashar al-Assad. A discussão envolve um bombardeio, forças governamentais, mísseis com gás sarin, uma população desarmada e suas crianças com membros carbonizados, a visão da agonia em meio a suplícios espantosos. Menciona o governo do ex-presidente Barack Obama. Comenta a rivalidade entre reformistas, democratas e terroristas islâmicos diante de um tirano sírio e seus excessos genocidas. Fala do governo autocrático de Putin, da imperícia de Trump e do Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Embora fiquemos comovidos, assim como Trump (??!!!!), com a questão síria, ele nos relembra que ocorrem outros conflitos mundo afora, tais como: as carnificinas no Afeganistão, atentados no Paquistão, a desintegração da Líbia, sequestros e massacres organizados pelo terrorismo islâmico na África, os refugiados que se arriscam no Mar Mediterrâneo em direção à Europa, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, o espetáculo de corrupção proporcionado pela empreiteira Odebrecht no Brasil e na América Latina.

Tantas questões. Todavia, a maioria dos leitores de jornais só leem superficialmente a notícia, talvez mal passem pela manchete. Depois, sairão por aí postando comentários sobre aquilo que não leram.

Vargas Llosa da mesma forma que começou, termina o artigo citando o escritor peruano César Vallejo, considerado um dos maiores poetas hispano-americanos do século XX:

““Ler um bom jornal” já não é, como quando César Vallejo escreveu esse verso, sentir-se seguro, em um mundo estável e reconhecível, mas empreender em uma excursão na qual, a cada passo, pode-se cair em “uma jaula de todos os demônios”, como escreveu outro poeta.”

 

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O gosto amargo de Chocolate

“Chocolate” (Chocolat, no original), do diretor Roschdy Zem, é uma produção de 2016 do cinema francês, ano em que também estreou nos cinemas brasileiros.

O filme conta a história de Rafael Padilla (Omar Sy), nascido escravo em Cuba, por volta de 1865. Abandonado pelos pais, cresceu nas favelas de Havana até ser vendido para um empresário que o levou para trabalhar na casa da família na Espanha. Aos quinze anos conseguiu fugir e integrar-se a um circo.

Posteriormente, foi descoberto pelo palhaço George Footit (James Thiérrée), quando apresentava-se como Kananga, o canibal africano, num pequeno circo interiorano. Footit precisava se reinventar a fim de sobreviver na cena circense. Quando este assiste ao homem negro, vê ali a oportunidade de criar um número inovador. Os dois tornaram-se, a partir daquele momento, uma dupla famosa. Seus números caracterizavam-se pelo humor pastelão, onde o negro era humilhado e levava tapas e pontapés do branco, arrancando invariavelmente as gargalhadas do público. Nascia, assim, o palhaço Chocolat, o primeiro artista negro de circo a fazer sucesso na França. Esse foi um gênero de humor que consagrou, com algumas variações, artistas como Charles Chaplin, O Gordo e o Magro, Os Três patetas, Chaves e Os Trapalhões.

No decorrer da história, percebemos a dubiedade da relação entre os dois palhaços, a qual reforça a contradição entre a imagem do negro desregrado/irresponsável e o branco equilibrado. Todavia, por trás disto havia outros elementos não aprofundados no filme.

Apesar de clichês, lugares comuns e releituras, a história é muito bem contada e nos oferece alguns motivos para interpretação e reflexão. Podemos enxergar Chocolat pelo lado do pioneirismo (tanto por ele ter sido o primeiro negro a atuar como palhaço, assim como pelo ineditismo do tipo de humor que a dupla apresentava), dos preconceitos e da opressão racista, da sua inconsequência e ingenuidade, da compulsão por jogos e bebidas, de seu sucesso com as mulheres e do fracasso sofrido ao tentar interpretar a peça de teatro Otelo, de Shakespeare. A riqueza temática do personagem e o pouco tempo para contar a história, além da necessidade de tornar o filme acessível para uma maior fatia de público, talvez tenha limitado o espaço destinado às ousadias e experimentações.

Passada a euforia do sucesso, começa a fase de tomada de consciência. Inclusive e, ainda, no auge do sucesso, Chocolat é preso e maltratado na prisão. A partir daí, ele sente a necessidade de compreender, de questionar os preconceitos sofridos, mesmo aquelas pequenas coisas do dia-a-dia que, em seu somatório, se tornam grandes, sofridas e violentas. Por que a cor de sua pele o prendia a um papel de ser inferior, ignorante, selvagem, perigoso e hiper-sexualizado? Por que só eram capazes de reconhecê-lo como Chocolat e não como Rafael Padilla?

Desta fase de conscientização deve-se citar a sequência em que o personagem visita um “show étnico”, na verdade, um zoológico de humanos. Um choque de realidade. Reconhece-se ali, igual aos “exóticos africanos”. Na visão dos visitantes curiosos, eles não passavam de animais primitivos. Neste momento, um dos africanos em exibição revolta-se com a sua presença e o hostiliza. Talvez em sua língua dissesse não precisar do falso olhar de superioridade de alguém que não se percebesse como eles. Ele não deveria estar ali, integrando e apoiando aquele circo de horrores.

Cabe ressaltar, os tais shows tiveram o seu apogeu entre as décadas de 1890 e as de 1930. Além de entretenimento, esses espetáculos serviam como propaganda e justificativa da colonização das terras dos povos considerados inferiores e primitivos. Usava-se também o argumento de que fariam parte de um estudo das diferentes etnias. Além disto, entre outras teses, explicariam que o negro africano seria o elo biológico entre o homem branco ocidental e o macaco. Nestas exposições viam-se homens, mulheres, idosos e crianças de diversas etnias (africanos, indígenas ou esquimós) enjaulados em espaços imitando seus ambientes e tribos de origem. Já decadente, em 1958 foi realizada em Bruxelas a última exposição deste tipo. Esta representava o que na época se chamou de “vilarejo congolês”. Não resistiu às críticas e fechou em pouco tempo. Ainda sobre este assunto pode-se citar como referência o filme “A Vênus Negra”, de Abdellatif Kechiche, onde é apresentada a trajetória da sul-africana Saartje Baartman, conhecida pela alcunha de a “Vênus Hotentote”.

Voltando a Chocolat, já no ápice de sua conscientização, ele tenta se desvincular da imagem consagrada do palhaço. Ele quer mostrar àquela França que é capaz de representar Otelo. Ele quer ser Rafael Padilla, ator, ser humano. Até, então, os papéis de negros eram representados por atores brancos com os rostos pintados de negro. Mas isso merece ser visto no filme. É uma bela e triste sequência. Entretanto, aí reside a dúvida. Não haveria, além da busca pela aceitação, uma busca pelo embranquecimento?

Sobre aquela característica do teatro do século XIX, fica aqui como curiosidade e uma ideia para um próximo artigo, a análise da “Cabana do Pai Tomás”, novela exibida pela Rede Globo, nos idos de 1969 e 1970. Nesta o ator Sérgio Cardoso, caracterizado como negro, interpretava o personagem título. Tratava-se de uma história inspirada em um original norte-americano. Mas Ruth de Souza, indicada por Cardoso, mesmo sendo hostilizada pelos outros membros do elenco, conseguiu ser a primeira protagonista da televisão brasileira.

São histórias que se repetem e atravessam séculos. Falar de racismo nos dias de hoje nem sempre é fácil, principalmente quando muitos levam para o lado do deboche, da banalização.

Recomendo o filme “Chocolate”, que através de uma linguagem acessível, com boa produção e atuação dos atores Omar Sy e James Thiérrée, nos apresenta um homem emblemático: Rafael Padilla.

J. Campos

Barueri, 06-12-2016

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma Primeira Reflexão Sobre o Lagartixa Literária

Em todas as tradições xamânicas os animais são vistos como arquétipos, símbolos de energias que existem e que podemos encontrar e manifestar dentro de nós. E como arquétipos energéticos, cada pessoa tem seu “Animal de Poder”, “Animal Negro”, “Animal Dourado” e seu “Animal Alado”, que correspondem às características que aquela pessoa necessita desenvolver, aprender e manifestar em si, em determinado momento de sua vida.

Todos nós possuímos um Animal do Poder e apenas um. No contexto de cura do Grande Espírito ele representa nosso ego e características da nossa personalidade. As personas (máscaras) que usamos, nossas habilidades conhecidas e aquelas a que ainda não tivemos acesso.

A sabedoria existente em um animal específico, não está necessariamente ligada a sua aparência ou aos preconceitos e crenças criados pelo homem, e sim ao seu poder natural.

No xamanismo, a lagartixa representa otimismo, adaptabilidade, regeneração, sonhos, renovação e transformação.

As lagartixas podem subir paredes – inclusive de vidro – e até andar sobre tetos, graças à uma força intermolecular que elas possuem, estabelecidas pelas cerdas existentes em suas patas.

Outra curiosidade é que algumas espécies apresentam capacidade de camuflagem, como os camaleões. Em outras espécies, as lagartixas comunicam-se entre si através de ruídos – o que não é muito comum entre lagartos.

Como Animal de Poder a lagartixa nos remete à capacidade de adaptabilidade, ou seja, o xamã que se adapta a qualquer lugar ou situação. Também relaciona-se à regeneração, pois a lagartixa regenera a sua cauda de maneira surpreendente, caso ela a perca. Neste caso, simboliza o xamã que combate as influências de espíritos libertinos, e sempre após um combate espiritual o xamã possui a capacidade de recuperar sua energia vital.

Fonte: http://www.xamanismoancestral.com.br/artigos/animais_sagrados.html (acesso 12-11-16 – ligeiramente modificado)

Papoulas, Gaivotas e Trens: O Teatro de Roldan-Roldan

 

 

O teatro de R. Roldan-Roldan tem a mesma força, dramaticidade e humor de seus romances, contos e poesias. Roldan-Roldan é um escritor que escreve por paixão. Em suas obras vemos, bebemos, respiramos, sentimos e absorvemos a literatura enquanto arte e indagação, não apenas como puro entretenimento. Seus textos têm vida, têm alma. Através de uma atmosfera densa e poética, ele nos apresenta seus personagens, pelos quais nos apaixonamos rapidamente. E, numa constante busca e resgate, ele compartilha conosco as marcas do seu passado. Um passado trazido da Europa, da África e outro vivido no Brasil. Marcas fortes, às vezes dolorosas, ácidas, outras de puro amor e contemplação.

Este artigo vem trazer algumas considerações a respeito da leitura de duas peças teatrais do escritor: “As Loucas Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio” e “As Papoulas de Constantinopla”.

Em “As Loucas Gaivotas Morrem na Fronteira ou O Trem do Delírio” temos um desfile de personagens bem característicos do mundo roldaniano. Misteriosos, questionadores. Cada um deles ligado a uma expressividade do desejo corporal, da sensação de existir, às lembranças do passado, ao exercício da beleza, ao desconhecimento do tempo e do espaço, à natureza e à lei dos homens. Viajam em direção a Zirpiak, a última fronteira. Lá também encontramos o alter ego do autor. Trata-se de David Haize, o escritor-personagem que pegou aquele trem aleatoriamente e agora viaja para o fim do continente, um destino desconhecido onde vive loucas aventuras. E é através de seus olhos que nos defrontamos com um vasto painel habilmente construído por Roldan-Roldan. A peça, que descobriremos que é uma peça dentro da peça, se desenvolve num ritmo e movimento constantes de pessoas e situações. Além disso, o trem é misteriosamente seguido por um bando de gaivotas. Que relação elas estabelecem com o trem e seus misteriosos personagens? O que eles, gaivotas e personagens, esperam encontrar em Zirpiak?

Difícil? Não, Roldan-Roldan é mais acessível do que muitos autores que se lê por aí.

Já em “Papoulas de Constantinopla” temos um prisioneiro político condenado à morte, em vias de ser executado. Apesar de ser-lhe dada a chance de poder se arrepender, ele prefere morrer por seus ideais. No único ato da peça, desenvolvida em quatro cenas, recebe no cárcere a visita da mãe, da esposa, do juiz, da Morte e do Pai. De estilo mais condensado e, por isto mais dramático e rigoroso do que “ As Gaivotas…”, “Papoulas de Constantinopla” nos proporciona momentos, ao mesmo tempo intensos e sublimes.

Não há uma referência clara a tempo e espaço e, portanto, podemos transcender a história para qualquer época e, por que não, a nossa? Aliás, o despojamento e a concisão dos textos de Roldan-Roldan, assim como a carga erótica e as questões sociais e políticas são marcas registradas e consagradas deste autor.

Em “Papoulas de Constantinopla”, com exceção dos diálogos da Morte e do Pai, a mãe, a esposa e o juiz tentam convencer o preso a abrir mão de seus ideais e, assim, obter perdão e salvar a sua vida. Entretanto, ele está firmemente disposto a morrer pelo que é, pelo que acredita. Convicção, teimosia, fanatismo, solidez de caráter, frieza? O texto de Roldan nos dará as pistas.

Roldan-Roldan mistura realismo e surrealismo. Todavia, seus textos e histórias não se perdem em caminhos tortuosos por isto, nem inebriam ou ficam restritos à superfície. Ele nos traz um mundo próprio, fantástico, marginal, cosmopolita, lírico, sem concessões. Como já escrevi em outros artigos, é necessário ter a coragem de romper com as obras mastigadas, deglutidas, ruminadas e vomitadas na boca do leitor para poder apreciar Roldan-Roldan. Vencida esta etapa, é fácil tornar-se fã de sua literatura. Nas palavras do próprio autor: “…. Não se exorcizam fantasmas transcrevendo. Mas transfigurando. Penso que esta premissa se aplica a quem quer fazer literatura. Ou arte em geral. ”

Considerações sobre outros excelentes textos teatrais “Jaulas (Subsolo)” e “O Ato – Foder é Vermelho” serão realizadas posteriormente em outro artigo. Atualmente a obra de Roldan-Roldan pode ser encontrada em seu blog, sebos, livrarias e de forma digital e impressa pelo site da Amazon.

J. Campos

Barueri, 07-11-2016