Un tazón de café con leche y pan de Tánger

Já abordei em outras ocasiões a literatura roldaniana recente. Desta vez senti a necessidade de voltar um pouco no tempo e escrever algumas linhas a respeito do livro “Ao Sul do Desejo”, publicado por R. Roldan-Roldan, em 1997.

Mesmo decorridos cerca de 20 anos entre a publicação do livro mencionado e “O Rimbaud Negro”, percebe-se a solidez e a fidelidade estilística ao longo dos anos deste autor apaixonado por sua arte e sua profissão.

Quando escrevo sobre R. Roldan-Roldan, penso naquele garoto vivendo no exílio com seus pais, refugiados da ditadura franquista, apátridas nos arredores de Tânger, uma cidade repleta de histórias, segredos e fantasias. Ele era aquele garoto que comia com repleta satisfação uma tigela cheia com pequenos pedaços de pão amanhecido, umedecidos em leite e café, como se fosse um delicioso mingau. “Eu tinha fome”, disse-me o escritor. Imagino o garoto catando ferro velho para vender e conseguir alguns trocados ou ainda juntando restos de madeira para trocar por doces envelhecidos na padaria local. Penso naquele garoto que cresceu maravilhado com o mundo do cinema e da literatura e, como escrevi em outra ocasião, vejo a imagem do menino percorrendo as ruas estreitas e misteriosas da Casbá, num tempo em que isto não era um hábito de nenhum estrangeiro, adulto ou criança.

R. Roldan-Roldan é dono de uma escrita rápida, cinematográfica, com pinceladas autobiográficas. Seus textos não são rasos, pois revelam sensibilidade, lirismo e apreço pelo ser humano mais simples e à margem da sociedade. Em determinados momentos demonstra-se raivoso, inconformado com as injustiças, outras é ousado, sarcástico e até chocante.

Com a voz na primeira pessoa, sua narrativa assume um ar misterioso e, às vezes, obscuro. Todavia, cada peça, cada detalhe está bem encaixado. Quando pensamos saber de tudo, somos maravilhosamente surpreendidos no final.

“Ao Sul do Desejo” é uma coletânea de características viscerais, constituída por cinco contos bem casados.

No conto “Retrato de Gerente em Noites de Verão” acompanhamos o relacionamento de uma funcionária, novata na empresa, às voltas com o seu misterioso gerente. Um homem focado e dedicado durante o horário comercial, mas que se transforma no “lobisomem das 18 h”, após o expediente. Somos envolvidos por um jogo de sedução, erotismo, dúvidas e renúncia.

“Referências: Brumas/Papoulas” é um texto com tons extremamente poéticos que mostra a solidão do narrador-personagem que passa uma noite em uma casa vazia, mas cheia de lembranças e fantasmas. A perda dos entes queridos, a tristeza, o amargor e a realidade de estar só em um lugar após a morte de quem mais se amava: os pais. “Não há música como em outras histórias. Há do sepulcro o silêncio. Do caos a inércia”.

Em “Bakartasun”, um homem resolve passar a véspera de Natal em um quarto de hotel, uma noite solitária, dedicada à “catarse das lágrimas”. Aliás, no idioma basco, bakartasun significa solidão. Mais do que uma simples palavra, exótica para os nossos ouvidos, remete às questões sobre identidade. Consigo, o personagem carrega um toca-fitas e “Fitas onde cada canção teria a função específica de fazê-lo chorar por um motivo determinado”. Aqui Roldan-Roldan fala novamente dos seus pais, de exílio e da obstinação de algumas pessoas diante dos obstáculos.

As lágrimas lavam a alma e dão forças ao ser humano para continuar a travessia. Mas diferente de Clarice Lispector, Roldan-Roldan não procura ou promove uma elevação espiritual de seus personagens. Tanto “Referências: Brumas/Papoulas” quanto “Bakartasun” são marcados pela intensidade e emoção das palavras, mas, ao contrário do que possa parecer, não caem em clichês dramáticos.

“Ashton” no início, para um leitor desavisado sobre o mundo roldaniano, dá a impressão de querer levá-lo à frugalidade de um “Mad Max”. Entretanto, é apenas uma leve impressão. Um homem desmemoriado percorre uma estrada deserta, ao fundo a paisagem de um cerrado: “Sol alto, forte. Caminhava no meio da pista vazia. Passos lentos, regulares.”

Ali naquela introdução talvez tivesse algo de “Paris, Texas”. Todavia, o personagem de Wim Wenders caminhava mais rápido e irregularmente. As letras de Roldan-Roldan vão em outro sentido.

Em certo momento, o andarilho ganhou a alcunha de “O Homem da Estrada”, dado pela “Rainha do Lixo”. Interrogado, só conseguia repetir a frase “eu sou escritor”, em várias línguas. Ninguém o compreendia. Em seu caminho, ainda encontrará a “Anfitriã” e se verá num baile à fantasia, bem ao estilo Luís XVI. Altamente simbólico e reflexivo. Neste texto, quando já esquecemos as notícias jornalísticas, Roldan-Roldan revira a nossa memória e nos joga na cara um fato que ocorreu com os catadores de lixo em Recife, em 1997. Retempera e o transforma em literatura.

Roldan não é cruel, mas no meio dos seus textos, com toques surrealistas, às vezes nos deparamos com as reminiscências da vida real.

Já o conto que dá título ao livro “Ao Sul do Desejo” nos traz um escritor que, na busca por inspiração, frequenta um bar, o “Bar das ilusões perdidas”. Sentado a uma mesa, em meio a seus rascunhos, observa as personagens que por ali passam.

Naquele ambiente envolve-se, de modos distintos, primeiro com Daniel e depois com Deborah. Paralelamente, começa a receber cartas misteriosas e anônimas de alguém.

“Nunca soube a verdade. Pergunto-me se a verdade, neste caso, existe. O que é verdade num jogo?”

Perdido, confuso no meio daqueles três seres, a coisa piora, quando aparece um quarto elemento. O escritor apenas sabe dos seus próprios sentimentos. Na verdade, até os próprios sentimentos o traem. Em determinado momento ele evoca Stefan Zweig, como se estivesse vivendo algo como em “A Confusão de Sentimentos”.

Trata-se aí nada mais que uma homenagem à literatura. Para o personagem roldaniano pode até haver a confusão de sentimentos, mas a maneira como isto é trabalhado pelos dois escritores é diverso.

Zweig é calmo, minucioso e cozinha em fogo brando, abusando de especiarias finas. Existe a dúvida e o medo, então, ele evoca Shakespeare. Roldan-Roldan é rápido, explosivo, as minúcias não são simétricas, certinhas. Nele também há dúvida e medo, mas temperados com temperos fortes e cozidos na fornalha. Apesar disto, ele evoca Zweig e as tormentas se tornam calmaria.

Roldan-Roldan é um escritor eclético, as referências de filmes, diretores de cinema, artistas plásticos, músicas e cantores, entre outros refletem a sua admiração e seu entusiasmo pelo mundo das artes. Admiração e conhecimento que ele compartilha com seus leitores. Saber ou não sobre eles não compromete a leitura, mas o saber nos ofereceria a oportunidade de nos aprofundarmos um pouco mais na mente e na genialidade deste escritor.

Recomendo a leitura de “Ao Sul do Desejo”, principalmente àqueles que têm sede de boa leitura. Assim como eu, desfrutem de um saboroso café com leite e pão.

 

J. Campos

Barueri, 19-08-2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Atalhos

Trilhas encantadoras, caminhos pedregosos, estradas empoeiradas, encostas lamacentas. São os atalhos que encurtam ou, por sorte ou azar, alongam as distâncias, desafogam os congestionamentos, aliviam a ansiedade, alegram e influenciam existências. Alguns, edulcorados, servem apenas para se mostrar às pessoas o quanto se é feliz na fachada. Outros nos fazem ser bem aceitos pelo grupo ao qual pertencemos. Há aqueles que garantem a invisibilidade e propiciam esconderijos aconchegantes, enquanto seus hóspedes fogem aos olhares críticos. Seguros, porém, tensos, vivem num mundo de cautela e isolamento interior. Se um dia a arrogância e a inveja chegarem, os infelizes podem até ganhar confiança e, por pura maldade, apontarem o dedo para os incautos.

Cada pessoa escolhe ou é levada a escolher a zona de conforto mais apropriada para viver as suas fortalezas, medos e aquela sede incontrolável de coisas e poder.

Recorrer a mentiras e golpes baixos. Fingir não conhecer pessoas e lugares. Não assumir os próprios erros. Há uma gama variada de becos úmidos e escuros pelos quais as pessoas se enveredam a fim de chegarem, no menor tempo possível, a alamedas charmosas e bem localizadas.

Ao poupar pernas e pés, ganha-se o tempo e o fôlego suficientes para se dedicar a outras atividades, vivências e problemáticas.

No trabalho, os atalhos auxiliam a alcançar níveis de qualidade e eficiência. Entretanto, a jornada pode conduzir à uma direção contrária. A falta de competência e planejamento, como também o uso de meios e fins pouco nobres, comprometem qualquer tipo de iniciativa.

Na ânsia por status, sucesso e bem-estar, os caminhos longos e enfadonhos são descartados. Entretanto, nem sempre a urgência favorece as escolhas. Inevitavelmente, depois de tomada a decisão, surgem as dúvidas. Foi gratificante deixar de percorrer aquelas belas e extensas paisagens? Gostou da ideia de trocar a visita às pirâmides do Egito pelos parques da Disney? Sentiu-se bem em descartar as ideias e soluções viáveis por resultados imediatos e duvidosos? Não dá para evitar os dilemas trazidos pelos atalhos. Não dá para mudar o passado ou retornar às estradas abandonadas. Todavia, as experiências tais como as de fuga, arrependimento e fracasso são complementos indispensáveis para o aprendizado do viver.

Ainda somos influenciados pelas grandes emoções, caras feias e carrancudas, ameaças, cobranças, chantagens, ironias, palavras mal colocadas, desavenças, xingamentos e autopiedade. A jornada não pode ser outra. Enganamos o tempo. Vivemos o tédio. Abusamos do ócio. Mergulhamos no exagero. Valorizamos a superfície. Evitamos os dissabores. Não enxergamos a nós próprios… não enxergamos a vida.

Não adianta recorrer a mantras, clichês de autoajuda ou a pensamentos edificantes, se não existir atitude e vontade de viver plenamente.

 J. Campos

Barueri, 21-05-2016

Estudo sobre a influência da Lua na menopausa da borboleta azul

 

 

Outro dia coloquei um texto na internet e fiquei surpreso com o “curtiu” de um velho conhecido. Até aquele momento, este nunca demonstrara interesse em minhas postagens. Não que estas fossem o suprassumo da criatividade e merecessem uma perda desesperada de tempo para leitura e contemplação. No entanto, não pude evitar certa curiosidade pelo inusitado. Não resisti em perguntar-lhe sobre coisas que aprimorariam o meu trabalho. A pessoa disse que curtira, mas não lera. Pensei: como alguém pode curtir um texto que não leu? E se eu estivesse propondo algo radical, imoral ou antiético? O conhecido talvez só quisesse ser gentil, mas também poderia estar possuído por um mecanismo automático e irresistível de curtições. Conformei-me, esta realidade existe e faz parte do mundo moderno. A leitura ocorreu depois, talvez devido a uma mistura de constrangimento e simples educação. A espontaneidade se perdeu. Foi um aprendizado para mim.

Nas redes sociais, os usuários, munidos de uma grande lista de “amigos”, geralmente estão atrás apenas das “curtidas”. Embora existam, os assuntos um pouco mais elaborados não são o forte desses sites. Há mais interesse por piadas, fotos, besteirol, joguinhos, amenidades, informações e notícias fast food. Estas, por sua vez, estão diluídos e disseminados em formatos recorrentes: prostituição, pedofilia, assédio sexual e moral, preconceitos, falsidade ideológica, mentiras, meias-verdades, narcisismo, tédio, depressão, más e boas intenções, voluntariado, solidariedade, utilidade pública, opiniões, correntes edificantes, etc. Fora isso, percebe-se que algumas discussões e mobilizações de grande interesse carecem de um pouco mais de profundidade, seriedade, racionalidade e engajamento consciente.

Como o mundo não para de evoluir, o acesso à internet através do celular tem aumentado nos últimos tempos. Ao andarmos pelas ruas, no ônibus, no trem, no ambiente de trabalho ou de lazer, vemos uma multidão com os seus olhares perdidos no visor dos celulares. Dependendo de onde estamos a cena chega a ser engraçada. Parece um bando hipnotizado, para não dizer viciado num excesso de comunicação/informação que nem sempre diz absolutamente nada. Usar o aparelho para fazer ligações rápidas ou, simplesmente, não o ter faz de você algo tão exótico quanto um alienígena.

Há um vídeo bastante compartilhado nas redes, muitas vezes fragmentado e sem referências, do professor Leandro Karnal. Trata-se de uma palestra apresentada no programa “Café Filosófico”, da TV Cultura de São Paulo, intitulada “Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco”, do qual selecionei algumas passagens:

“… somos cada vez mais solitários porque temos cada vez mais dificuldade em estabelecer algo orgânico e significativo com o mundo…”

“… o que somos de verdade com ou sem o apoio da igreja, da família e de outras instituições para as quais estamos sempre cumprindo papéis? Se a família te apoiar ou te criticar, você continuará sozinho”.

“… quando não tenho sabor nas coisas que eu vivo e faço, eu multiplico as coisas que vivo e faço. Eu não suporto ficar em casa comigo mesmo. Por isso preciso viajar o tempo todo. Prefiro o caos do aeroporto ao silêncio de casa.”

“…. tente descobrir vagamente quem você é. Você não será feliz. Mas sua consciência o impedirá de ser vazio. E você não precisará postar o tempo todo na internet.”

Apesar de ser um paraíso narcisista ou de felicidade de fachada, não devemos e nem podemos cair no terreno minado da falsa moralidade e do policiamento conservador. A internet, com destaque para as redes sociais, é importante. Há muita coisa boa e válida por ali, para quem sabe aproveitar esta ferramenta e fazer a diferença.

Realizada a pequena reflexão sobre o ser humano e o mundo virtual, surge a necessidade de se olhar um pouco para o mundo do lado de fora. Os exemplos poderiam ser outros, mas os que se seguem são suficientes para continuar o assunto.

Morar em apartamento, em geral, nem sempre dá a oportunidade ou a vontade aos vizinhos de se conhecerem. As interações ocorrem em momentos especiais, como aqueles que envolvem desavenças. O barulho do caminhar de saltos altos em horários impróprios no andar de cima é um santo remédio para a aproximação de indivíduos estressados. Outro modo de contato são as reuniões de condomínio às quais ninguém vai, a não ser que haja algum interesse especial. Muitos nem se cumprimentam quando dividem um elevador ou, quando se topam, no hall de entrada. É perceptível em algumas situações, o ritual de empinar o nariz ou fixar o olhar em uma linha reta e fingir não ver quem passa ao lado. Talvez seja cisma de gente antiga, porém isso não deixa de ilustrar o crescente individualismo e a falta de cordialidade entre as pessoas.

Por falar em cordialidade, utilizar o sistema de transporte público nem sempre é das tarefas mais agradáveis. Usemos como referência a região metropolitana de São Paulo, sem querer generalizar, apenas para citar situações conhecidas. Estamos conscientes de sua precariedade e incapacidade para atender plenamente à demanda. Associado ao que foi dito e à falta de cortesia entre os usuários, nos deparamos com uma luta diária pela sobrevivência. Fura-se as filas de forma descarada. O empurra-empurra e o salve-se quem puder são das coisas mais comuns. Há ainda a falta de respeito em relação ao uso dos assentos preferenciais e o lamentável assédio sexual. Não se pode esquecer daqueles indivíduos que insistem em andar pelo contrafluxo nas estações mais lotadas. Aparentemente, a modinha de impor aos outros o som alto de música de gosto duvidoso dentro do transporte público é coisa superada. Mas ainda existem aqueles que insistem em fazer pregações religiosas fervorosas e cansativas no espaço confinado de um trem em movimento, em pleno horário de pico.

Já, no interior de seus automóveis, os motoristas buzinam inutilmente. O trânsito continua lento e o estresse não ajuda em nada. Quando os carros ganham velocidade, finge-se não enxergar os pedestres, nem se respeita a sinalização. Além disso, alguns motoristas parecem apresentar uma grande dificuldade para acionarem a seta de direção. Na primeira oportunidade fazem manobras desnecessárias, irresponsáveis ou exibicionistas.

Os exemplos e as reflexões são inúmeros.

Em algum momento da escala evolutiva, os seres humanos sentiram a necessidade de se reunirem em grupos para vencerem os obstáculos e se protegerem contra os perigos da natureza. Hoje, a salvo no ambiente urbano, o homem se esconde no seu egoísmo, narcisismo e individualismo. A vivência dentro das sociedades se tornou outra coisa.

Provavelmente teria sido mais divertido, interessante e empolgante escrever um “Estudo sobre a influência da Lua na menopausa da borboleta azul”. Mas e daí? O que viria depois? A inquietação não deixaria de existir.

J. CAMPOS

Barueri, 03-11-2015

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Pai, o Amigo, a Rosa e os Ventos

É comum termos em nossas estantes, em algum canto ou alguma caixa, livros e textos que juramos que vamos ler num certo depois, já sabendo que esse depois nunca chegará. Há outros livros dos quais apenas ouvimos falar ou recebemos algumas dicas, algumas referências, mas estes nos despertam tanta curiosidade, tanta vontade de lê-los que, mesmo que demoremos, um dia concretizaremos a leitura.

As urgências do dia a dia nos levam por vários caminhos e prioridades, diferentes daqueles dos quais gostaríamos de nos enveredarmos. Tudo bem, é a vida! Foi assim que aguardei quase quarenta anos para ler “Pai, me compra um amigo?”, livro de literatura infanto-juvenil, cuja primeira edição data de 1977, do escritor Pedro Bloch (1914 – 2004).

Naquela época o conceito de computador pessoal ainda engatinhava. Uma linha telefônica não era um recurso disponível e acessível para todos e os primeiros celulares, apelidados de tijolões, só chegariam ao Brasil na década de 1990. Sem a internet, que começou a dar as caras lá pelos idos de 1988, também não existiam as redes sociais. Espantoso e quase inverossímil quando se compara com os recursos e as necessidades tecnológicas e de comunicação atuais. Apesar disto, adultos, jovens e crianças divertiam-se e interagiam. Havia mais o cara-a-cara e o corpo-a-corpo. Sem falar que as gírias, as roupas, as músicas e os ídolos eram um capítulo à parte.

Bebeto, definido como problemático, luta, com seu jeito desajeitado, para conquistar um pouco de espaço e atenção.

Para o pai, um administrador de empresas, e a mãe, uma artista plástica, era um “filho que veio em hora errada, pois queriam esperar um pouco mais e algo falhou”. Deixado aos cuidados de babás ou de uma avó “que só cuidava quando não tinha o que fazer em seu palacete em Petropólis”, Bebeto ainda precisava de professora particular e de psicóloga. As dificuldades enfrentadas pelo menino, portanto, não tinham origem financeira. Os pais, talvez iludidos pela segurança e conforto trazidos pelo dinheiro, não viam como importante a necessidade de demonstração de afeto.

O título do livro veio de uma conversa entre o pai e o menino, quando este ainda tinha cinco anos de idade:

“- Eu não tenho irmão. Cachorro serve.

[…]

– Apartamento não é lugar pra cachorro! – decreta o pai. […]

– Então eu quero um amigo. Você compra?”

O menino estava exposto a uma família ausente e a colegas de escola preconceituosos e maldosos. Rejeitado, tornara-se triste, isolado e com baixa autoestima. A situação só começa a mudar quando Paula, uma coleguinha de sala, mais sensível às suas dificuldades, tenta ajudá-lo a se integrar com o restante da turma.

Apesar de escrito para a geração da década de 1970, portanto em outro contexto, o assunto ainda é atual. Com vocação paradidática, “Pai, me compra um amigo?” pode ser trabalhado em sala de aula não só enfocando as características literárias, as formas de linguagem, aspectos históricos e culturais como também discutindo e refletindo sobre as relações e a falta de diálogo entre pais e filhos, passando por discussões sobre solidariedade, laços de amizade e aceitação das diferenças.

Esperar quarenta anos para ler o livro, foi bom. Se a leitura ocorresse em 1977, provavelmente, eu me decepcionaria. O título do livro àquela época sugeria uma história parecida com a minha. Carregado de esperança, talvez eu encontrasse ali as respostas e as receitas de bolo que eu procurava para a minha existência. Mas a minha realidade era outra, mais suburbana, mais periférica. As saídas e o final feliz retratados por Pedro Bloch não eram para mim.

Na escola, em 1979 fui apresentado ao livro “A rosa do ventos”. Foi uma leitura marcante e representou um ponto de virada, um símbolo de um conjunto de transformações pelas quais eu passava. De lá para cá, venho, de tempos em tempos, praticando a releitura.

Estava no auge da adolescência, completamente enclausurado dentro de uma concha. Eu era um molusco cada vez mais gordo, crescendo e sendo esmagado dentro de uma concha que não mais me acomodava. Assim, não foi difícil me identificar com o enredo do livro. Escrito por Odette de Barros Mott (1913 – 1988), este enfoca um período da vida de jovens comuns, das classes sociais menos privilegiadas, mas que sonhavam ou lutavam por algum tipo de mudança.

Recuperei o prazer pela leitura que havia perdido até então. Senti-me, vejam só, adulto lendo sobre temas baseados numa realidade próxima a minha. Talvez eu fosse apenas um adolescente deslumbrado por sentir-se ou querer ser adulto depressa. Nascia assim uma necessidade de questionar-me, uma ânsia por sair da inércia. Se não havia a possibilidade ou a coragem para conversar, trocar ideias com as pessoas do entorno, aquele garoto tímido aprendeu a fazê-lo com os personagens dos livros.

Publicado em 1972, o texto de Mott avança um pouco mais na proposta temática, vai um pouco além de Bloch. Todavia, não aprofunda tanto no que se propõe. Percebe-se duas coisas. A primeira refere-se às limitações do próprio público-alvo. Não adiantaria ser extremamente didático, atirar para todos os lados, pois cansaria e afugentaria o jovem leitor. A segunda limitação encontra-se no período histórico em que foi escrito. Há de se reconhecer que a autora foi pioneira na abordagem e no tratamento dado ao romance, embora ainda tenha apelado para algumas saídas fáceis e ingênuas.

O objetivo da “A rosa dos ventos” é a de provocar a discussão, indicar caminhos que talvez ajudem a desvendar as dificuldades e/ou abrir trilhas para outras leituras. A autora dedica um espaço ao final do romance para nos trazer este tipo de esclarecimento. Aliás, o próprio título remete a figura que representa os quatro pontos cardeais e seus intermediários. Desta forma, vemos que o livro apenas aponta direções. Não há respostas certas, nem erradas, apenas respostas ou a falta delas.

O texto nos apresenta um grupo de jovens, vindos em sua maioria dos bairros periféricos, transportados por ônibus e trens lotados. Trabalham na “Casa das Miudezas Ltda”, no meio de “Papéis, cadernos, lápis, enfeites de Natal, cartões, árvores prateadas” e dali a autora extrai alguns assuntos sobre: problemas sociais, relacionamento entre pais e filhos, as dificuldades de diálogo entre as pessoas, solidariedade e a importância da amizade. Passa de uma maneira tímida ao largo da questão da sexualidade, pois na década de 1970 abordar a questão da homossexualidade exigia um pouco de coragem. Mas não se pode dizer que agora, em 2019, seja fácil, uma vez que fomos expostos a certos ventos poeirentos e virulentos do passado.

Pedro Bloch, naturalizado brasileiro, nasceu na Ucrânia. Foi médico, escritor, dramaturgo e jornalista. Além de escrever intensamente para jovens e adolescentes, escreveu e dirigiu peças teatrais de grande sucesso. Entre elas estão “As mãos de Eurídice” e “Dona Xepa”. A primeira foi encenada em vários países e a segunda virou filme e, posteriormente, novela na Rede Globo.

Odette de Barros Mott nasceu em Igarapava, interior de São Paulo. Foi professora, casada com o antropólogo Leone Mott, mãe de oito filhos.

Depois de se dedicar a literatura infantil, na década de 1960, a escritora interessou-se pelo público jovem e adolescente. Inicialmente publicou livros de aventura e de mistério, como “O mistério do escudo de ouro”, até encontrar o seu caminho pela temática de cunho social e de outras questões relativas ao universo adolescente.

Premiada e consagrada, era bastante acessível e aceita tanto pelos jovens, quanto pelos pais e professores. Desenvolveu, inclusive, diálogo intenso, através cartas, com seus leitores.

Em 1980, na VI Bienal Internacional do Livro, em São Paulo, comprei um outro título desta autora: “Os dois lados da moeda”. A atendente, muito gentil, elogiou a minha escolha.

– Este é ótimo! Boa escolha! Veja! A autora está ali. Pede um autógrafo.

A vontade existiu, mas disfarcei e sai do estande com toda a minha bagagem de timidez. Nos corredores intricados de minha mente, tinha receio que ela reconhecesse em mim algum dos seus personagens. O molusco conseguira uma concha maior para viver, porém ainda vivia numa concha.

J. Campos

Barueri, 07/05/2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A Beleza e o Exotismo de Tânger através de “La Vida Perra de Juanita Narboni”

 

O filme “La Vida Perra de Juanita Narboni” (2005), da diretora Farida Benlayazid, baseia-se no livro homônimo de Ángel Vázquez (1929-1980). Nascido em Tânger, Marrocos, quando esta ainda era uma zona de controle internacional (1923-1956), governada e administrada por vários países, Vázquez nos mostra o apogeu e o declínio de uma sociedade multifacetada. Ali, naquele pequeno pedaço de chão, diferentes culturas e religiões conviveram, ora de forma harmônica, ora refletindo o que o mundo de fora trazia de bom ou de ruim.

Juanita Narboni, interpretada pela atriz Mariola Fuentes, conta-nos a sua vida, seu testemunho sobre as transformações de Tânger através de um extenso monólogo.

As referências sobre o livro e, depois, sobre o filme chegaram até a mim através da obra de R. Roldan-Roldan. Já retratado em outros textos e artigos que escrevi, este também cresceu em Tânger. Seus pais exilaram-se no Marrocos para fugirem da ditadura franquista. Assim o menino, aspirante a escritor, diferente de outros meninos e adultos estrangeiros, percorria as ruelas da casbá, cheio de sonhos e histórias para contar.

Juanita é filha de pai inglês, oriundo de Gibraltar, e de mãe andaluza. Resistente, amarga e apegada ao estilo de vida no qual foi criada, não absorve as mudanças pelas quais a cidade está passando. Juanita torna-se solitária em um lugar que, após a independência do Marrocos, em 1956, retorna às suas origens árabes. Os estrangeiros partem, principalmente para a Europa. Ela fica e sobrevive com uma pequena pensão, numa casa velha e escura.

Ela assiste a morte de seus pais. Sua irmã mais nova, extrovertida e ambiciosa foge com o namorado. Os amigos ou morreram ou foram embora. Uma empregada marroquina, Hamruch (Salima Benmounen) lhe faz companhia durante vários anos. Mas um dia chega a hora em que esta desaparece. Numa cena emblemática, sem saber o paradeiro de Hamruch, Narboni a procura pelos meandros da cidade. Um marroquino a recrimina. Como ela convivera mais de trinta anos com uma pessoa sem saber o seu nome completo ou onde morava? Mas ela sabia pouco sobre a empregada.

As passagens aqui retratadas não comprometem a boa leitura do livro ou o acompanhamento do filme. A beleza e o sentido do enredo estão na linguagem simples, nas nuances, no entrelaçamento com os fatos históricos. A essência de Juanita Narboni, portanto, é singela e ao mesmo tempo complexa, indo muito além de uma Mulher Maravilha ou de uma Capitã Marvel.

Com pitadas de humor, o filme é um drama leve, comovente. Mostra a solidão de uma solteirona que se agarra fortemente às reminiscências e deixa a vida e as oportunidades passarem. O entorno e as pessoas evoluem, mas Juanita fica presa a sua teimosia e a seu rancor.

Quando se lê a biografia do autor, vê-se que ele colocou muito de si em sua personagem. Vázquez morreu de ataque cardíaco, só e alcoolizado em uma pensão de Madrid.

 

J. Campos

Barueri, 04-04-2019

Um Filme, um Livro e a Falta de Educação

O filme americano “Conrack” (1974), do diretor Martin Ritt, protagonizado por Jon Voight, baseia-se no livro “The water is wide”, de Pat Conroy (1945-2016). Nesta obra, Conroy relata a sua experiência como professor em uma escola localizada na ilha Daufuskie, Carolina do Norte, em 1969.

Entre as obras de Pat Conroy, algumas adaptadas para o cinema, devemos mencionar ainda “O príncipe das marés”, “Guardiões da honra”, “Os senhores da disciplina” e “O grande Santini”.

Em “The water is wide”, somos apresentados a população local da época, constituída por uma comunidade de negros pobres. O único homem branco que vivia ali era um pequeno comerciante.

Conroy chega a escola, uma construção bastante precária, entusiasmado. Lá é recebido pela Srª Scott, interpretada pela atriz Madge Sinclair, que torce o nariz. Como se não bastasse ser um homem, era um homem branco.

O nome Conrack surgiu da dificuldade que os alunos sentiam ao pronunciarem seu nome. Isolados naquele lugar, é natural que a língua tendesse para uma dialetação.

Em breve diagnóstico, o professor logo constatou que seus alunos apresentavam séria defasagem em relação aos conteúdos escolares, inclusive analfabetismo numa turma que deveria estar mais adiantada.

A diretora era adepta dos castigos corporais e das humilhações, como forma de educar e controlar os alunos. Marcada pelo auto preconceito, a Srª Scott parecia acreditar que era inútil dar esperanças para aquelas crianças e adolescentes. O futuro delas estava na ilha, na pobreza e na ignorância. Em sua visão, eles não necessitavam aprender mais do que já sabiam. Precisavam ser disciplinados e se conformarem com a sua origem, pois eram lentos e preguiçosos. Mas ao longo do filme, percebemos que ela apenas fora vencida pelo sistema.

Todavia, Conroy é aquele tipo de professor que ama a profissão e acredita no potencial transformador da educação. Para ele, aquelas crianças mereciam um ensino de qualidade, como quaisquer outros alunos. Seu papel era o de fazê-las enxergar e entender que existia um mundo além da ilha.

Suas aulas eram dinâmicas e divertidas. Suas brincadeiras e estilo brincalhão possuí um sentido pedagógico. Assim, eles tinham aula ao ar livre, ouviam música clássica, assistiam a filmes, faziam educação física, aprendiam a nadar e a escovar os dentes. Em certa ocasião, Conroy os levou para conhecerem a cidade de Beaufort e participarem das comemorações do Dia das Bruxas. Nesta sequência, são bastante simbólicas a saída da ilha, a travessia de barco e a chegada ao “mundo civilizado”.

O Sr. Skeffington, supervisor da escola, interpretado pelo ator Hume Cronyn, mora na cidade de Beaufort. Um homem racista e conservador, o qual, portanto, não compactua com os ideais, nem com a metodologia pouco convencional de Conrack. Para ele não havia necessidade de mudança. Em uma cena, ameaça os alunos com um chicote, quando vê que o professor perdera o controle da classe.

A experiência de Conroy ocorreu numa época agitada. A Guerra Fria estava no auge, os jovens desafiavam os padrões estabelecidos, transgrediam. O movimento hippie e a contracultura horrorizavam os conservadores.

Em setembro de 2018, um episódio às vésperas das eleições no Brasil, envolveu o livro “Meninos sem Pátria”, do escritor Luiz Puntel. O livro, cuja primeira edição foi apresentada em 1981, é adotado, há vários anos, pelas escolas como leitura paradidática. Mas neste, motivados pelo clima polarizado e alimentados por boatos e notícias falsas, um grupo de pais de uma escola particular, a Santo Agostinho, no Rio de Janeiro, exigiu a retirada do livro da lista de leituras obrigatórias da 6ª série. Foram prontamente atendidos. O recuo da escola certamente esteve ligado a uma pressão financeira.

Segundo aqueles pais, o livro faria apologia ao comunismo e apresentaria uma visão distorcida em relação ao período histórico retratado e aos militares.

Baseado em fatos reais, o livro, um romance infanto-juvenil, relata, através da narrativa do filho mais velho, a história de sua família. O pai se torna perseguido político por conta do teor de algumas reportagens que fizera. Desta forma, a família é obrigada a seguir para o exílio. Inicialmente vão para o Chile. Depois, com a ascensão de Pinochet, fogem para a França.

Com linguagem e enredo desenvolvidos de forma simples e adequada a faixa infanto-juvenil, parece-me que a única ameaça do livro é a de tirar os jovens do terreno fácil da alienação.

O meu gosto e prazer pela leitura foram despertados na década de 1970, principalmente, através das coleções de livros da editora Ática, “Vaga-Lume”, da qual “Meninos Sem Pátria” faz parte e de outra, a “Para Gostar de Ler”. Instalada a polêmica, não pude evitar a curiosidade e a vontade de ler o livro e relembrar a minha adolescência na época da ditadura. Ao mesmo tempo, pesou na minha decisão a minha formação como professor de português e a necessidade de embasar a minha opinião sobre este episódio. Um episódio que, por assim dizer, marca o início de uma triste volta ao passado.

Uma frase bastante lembrada durante esta polêmica foi a do poeta judeo-alemão Christian Johann Heinrich Heine (1797-1856): “Aqueles que queimam livros, acabam cedo ou tarde por queimar homens”. Nada mais emblemático, quando refletimos sobre as lições deixadas pela história da humanidade.

Na década de 1970, em plena ditadura, vivíamos como que isolados numa ilha. Com pouca disponibilidade de informações, ingênuos e sabe-se lá mais o quê. Sabíamos o que acontecia no País, mas não conhecíamos a riqueza dos detalhes. Aprendíamos a ler, escrever, interpretar e a ter uma visão crítica sobre os livros que os professores conseguiam nos indicar. No pátio da escola faziam-nos cantar o hino nacional e algumas vezes uma daquelas músicas da dupla Dom e Ravel.

“Meninos Sem Pátria” a meu ver não induz a ideologia nenhuma. O livro apenas fornece elementos para que, com a mediação do professor, discuta-se um período histórico pelo qual passou o País. Interpretações equivocadas e emocionais decorrem da preguiça, da falta de estudo e de leitura.

Ao proibir um livro e/ou incentivar alunos a vigiarem, gravarem a fala do professor com a intenção de censurar e retaliar, perde-se uma das principais funções da escola, que é a de ensinar, compartilhar e discutir sobre a diversidade.

Voltando a “Conrack”, o professor foi vencido pelo sistema, representado no filme pela figura do personagem de Cronyn. Manter aqueles negros, aquela comunidade na ignorância seria a forma de perpetuar o modelo de exploração escravocrata. Seria manter uma mão de obra barata, ignorante e submissa presa à terra e à dominação vigente. Apesar disto, mesmo que tenha sido por pouco tempo, o professor conseguiu deixar uma semente em seus alunos, uma esperança, uma vontade de sair da ilha.

 

J. Campos

Barueri, 18-11-2018

 

 

O “Rimbaud Negro”: O Poema Nascido entre o Deserto e a Savana

 

Em 2017, R. Roldan-Roldan lançou o romance “Zirpiak, Última Fronteira”, agora em 2018 chega com dois livros de poesia. São eles: “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” e “Petit Léxique Poétique”. Este último escrito em francês.

Neste artigo vou me ater ao livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”, onde o autor presta uma homenagem a Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891), poeta inquieto, controverso, mas que influenciou muitos escritores que vieram depois. Rimbaud é bem conhecido pelo relacionamento amoroso e avassalador que teve com Paul Verlaine, mas também pelo estilo agressivo e inovador de sua poesia. Precocemente, deixou de escrever aos dezenove anos e iniciou uma longa viagem pela Europa, Ásia e África. Retornou para a França aos 37anos, onde morreu devido às complicações de uma gangrena na perna. Embora careça de profundidade e de um roteiro fraco, o filme “Eclipse Total de uma Paixão (Total Eclipse)”, da diretora polonesa Agnieszka Holland, fornece um retrato do poeta em questão.

O livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” não se resume a uma mera homenagem. Rimbaud permeia a trajetória, as buscas, as dúvidas e as conquistas roldanianas. O protagonista aqui é o próprio Roldan. Em livros anteriores ele vestiu o alter ego David Haize, agora mistura as próprias experiências a do poeta francês.

No poema “Rimbaud no inverno”, Roldan se lembra que não tinha a liberdade de Rimbaud, mas desenvolvia as suas atitudes e espírito crítico com aquilo que conseguia extrair do meio em que vivia: “[…] Não fugi não entrei na legião estrangeira/ Tinha que trabalhar para ajudar os meus/ Mas o desprezo pelos valores burgueses é o mesmo […]”.

É claro que para falar de Roldan-Roldan não é suficiente relacioná-lo apenas a Rimbaud. Mas as pistas e referências podem ser encontradas no conjunto de sua obra. Ele não é um escritor convencional. Ele não trabalha a poesia fácil e medrosa. Em todos os gêneros literários que pratica, foge do óbvio e de dogmas comerciais, assim como daquele estilo “fino, elegante e mediano” que consagra e deixa na zona de conforto alguns autores da nossa atualidade. Seus textos e poemas não são forjados em oficinas de escrita literária, com hora marcada e cartão de ponto. O tempo que dedica a seu trabalho é longo e árduo. Sua dedicação não é controlada por regrinhas e etiquetas preestabelecidas. Os textos roldanianos transpiram literatura. Talvez esteja aí o seu erro. Nestes tempos tecnológicos e individualistas em que vivemos, fica difícil transpor determinadas barreiras e convenções a fim de ganhar a simpatia dos leitores. Gosto de uma frase da escritora Ligia Fagundes Telles, que li em entrevista dada por ela em 2007 para a Folha de São Paulo: “Quem está em processo de extinção é o leitor, que lê pouco ou não entende o que lê. Já o escritor anda aparecendo por toda parte. Ainda bem, estão aí todos lutando, escrevendo, as prostitutas fazendo suas memórias. Que façam, que escrevam, tudo é válido. Mas leiam!”

O poema “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”, que dá título ao livro, é desenvolvido em três vozes. Nele conhecemos um homem negro nascido em Benim, na cidade de Cotonou. Filho de mãe agudá e pai francês, apaixonado pela poesia de Rimbaud, inicia uma peregrinação rimbaldiana. Além de fatos e lugares, testemunha os protestos de maio de 1968, conscientiza-se de sua negritude e de suas origens, além de ser deportado dos Estados Unidos por participar das manifestações pelos direitos civis. Nada mais roldaniano impossível e não podia ser diferente.

Escrever é natural para Roldan-Roldan. Ele não exagera ou floreia. Cada palavra, cada verso se apresentada de forma bem dosada. Seu mundo, embora flerte com o onírico, não é idealizado. As personagens não são mornas, nem assexuadas. Elas brigam, comem, bebem, vão ao banheiro e fazem sexo. Assim, ele resume em um dos versos: “o poeta que não vai a extremos não sabe o que é poesia”.

No poema “Entre Exílios”, um cavaleiro errante apresenta um dos estigmas roldanianos: “Como bala jamais retirada da carne/ Carrego o exílio […]”. Em “Infância”, o cavaleiro errante nos apresenta o Roldan menino: “[…] Quando o Sultão Shariar adormece/ Sheherazade conta histórias ao menino pobre/ Que sonha com doces finos […]”. Em “Sexo”, ele cultiva a paciência e resiste à espera: “[…] Longo jejum vontade premente / Rangem as dobradiças enferrujadas exasperadas / […]”. Em “Superioridade”, ele levanta o tom, fala de sua integridade e de suas revoltas: “[…] Por que não assumirias a tua superioridade / Se só acreditas no amor pelo ato / […] Se percebes que toda palavra deve ser renovada pela ação / […]”. Em “Desolação”, fala do passado e de suas perdas: “[…] Há um desfilar de ausências / Mortos amados que ensaiam patética farândola / […]”.

A obra de R. Roldan-Roldan é muito madura e consolidada. Seus textos, sejam em forma de artigos, romances e poesias, são profundos, humanistas e delicados. Entretanto, “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” pertence a uma nova fase literária do autor que se iniciou com o romance “As Três Viagens de David Haize”, em 2015. É um assunto que pretendo desenvolver em outros artigos e trabalhos, porém, percebo os textos roldanianos atuais carregados de mais intensidade e urgência.

Para quem gosta de boa poesia, recomendo o livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”.

J. Campos

Barueri, 22-09-2018

A Academia de Vampiros e o fast food

No ambiente de trabalho, durante uma conversa informal e descontraída, devo ter comentado algo sobre o tipo de leitura que me agradava. Não que eu seja ortodoxo, reacionário, preso a um só modelo de autor ou temática. Considero-me bastante eclético. Quando chegamos a determinadas fases, onde eu incluo esta, na qual estou cursando uma licenciatura em letras, preferimos manter determinado foco. Assim, no momento, estou interessado em outro tipo de literatura. No entanto, eis que sou desafiado a ler o primeiro volume da saga “Academia de Vampiros: O Beijo das Sombras”, de Richelle Mead.

Neste romance, Lissa Dragomir é uma princesa de uma sociedade de vampiros denominados Moroi. Rose Hathaway é a sua melhor amiga, mas ela pertence a outra categoria, os Dampiros, seres meio vampiros, meio humanos. Hathaway tem como missão se tornar uma guardiã e proteger Lissa dos Strigoi. Estes últimos são vampiros poderosos e corrompidos que precisam do sangue Moroi para manter sua imortalidade. O livro começa com as duas amigas sendo trazidas pelos guardiões de volta para a escola São Vladimir, após uma fuga de dois anos. A partir daí, a história lança os dilemas adolescentes numa trama juvenil vampiresca, com pitadas de romance, aquela coisa de alunos populares e impopulares, um pouco de futilidade e egoísmo, rebeldia com e sem causa, mistério, amizade, etc. Nada é novo ou revolucionário, mas desperta um interesse razoável.

Depois de alguma insistência bem-humorada, aceitei a dica literária. Não fiquei empolgado, devo confessar. Já possuía no meu currículo a experiência de ter assistido ao primeiro filme daquela trilogia, a tal de “Crepúsculo”. Não nutria, portanto, muitas expectativas em relação a obra de Richelle Mead. Certas “licenças poéticas” que se fazem atualmente destas pobres criaturas, os vampiros, são decepcionantes. Mas só aprendemos e mudamos os nossos preconceitos, quando nos dispomos a conhecer e a nos expor às diferenças. Como interessado em literatura, sei que devo investir numa visão abrangente das diversas manifestações de escrita que temos a nossa disposição.

Grosso modo, o livro de Richelle Mead é apenas de entretenimento, pois não apresenta a expressão artística e a estética que consagraram os clássicos e a literatura contemporânea mais densa. Até aí, tudo bem.

São livros, com todas as suas qualidades e defeitos, voltados para um lucrativo nicho de mercado editorial. Atendem a uma demanda de leitores ávidos por uma leitura fácil, ágil, linear, sem grandes elucubrações e servidos no melhor estilo fast food. São feitos simplesmente para entreter. Para ler e esquecer, mesmo quando têm alguma pincelada de mensagens edificantes. São válvulas de escape.

Ler o “Academia de Vampiros”, é como ir a um “Macdonald’s” ou qualquer outra rede de lanches ou de comidas rápidas. O cliente pede um lanche grande, enorme, gorduroso e cheiroso. Sorridente, o funcionário lhe serve o lanche com todo aquele queijo cheddar, hambúrguer, uma mísera rodela de tomate e uma folha de alface, além de mostarda, maionese e catchup escorrendo por entre as diferentes camadas. E a batata? De preferência ela deve gritar quando o cliente faminto lhe lançar um olhar: Me come! Me come! Me come! O atendimento tem que ser rápido, padronizado e as opções de lanches devem ser poucas para não complicarem a vida e a cabeça dos pagantes. Ao redor, um ambiente limpo, moderninho, americanizado, regado a palavras e expressões em inglês duvidoso. O preço deve ser caro, mais caro que um bom prato de comida saudável. Depois, a pessoa come de boca cheia e com um sorriso de orelha a orelha.

De vez em quando, não faz mal nenhum saborear um delicioso sanduíche, acompanhado de batatas fritas quentinhas e crocantes e beber um copo enorme cheio de refrigerante. No entanto, um prato com arroz, feijão, ovo frito e almeirão refogado também é muito gostoso.

Li o “Academia de Vampiros” como se tivesse ido àquela lanchonete comer o tal sanduíche. Comi sem culpa e por prazer. Entretanto, não saciei a minha fome. Senti falta de algo mais nutritivo.

As boas leituras estimulam e desenvolvem as habilidades relacionadas à aquisição de conhecimento (pensamento, linguagem, percepção, memória, raciocínio, etc.), contribuem para levar a pessoa a se colocar no lugar do outro e a entenderem melhor o mundo a sua volta. Elas prestam auxílio na formação de indivíduos capazes de buscarem soluções criativas para problemas cotidianos, além de fornecerem embasamento para discussões éticas. Bons leitores conseguem diferenciar opinião de argumentação e fogem das armadilhas das discussões superficiais e apelativas.

Uma pessoa adquire o hábito de ler gradualmente, com textos e autores que mais o agradam e despertam a sua atenção. Se livros como os de Richelle Mead desempenham este papel entre os jovens e os não tão jovens, não podem ser desprezados. Se, além de estimular, forem capazes de catapultar o leitor para leituras, mundos e reflexões mais densas, melhor ainda.

J. Campos

Barueri, 09-04-2018

Curriolas, Trouxas, Muquifos, “pé-pé-pé…pé-ré-pé-pé”, Joguinho Ladrão!!!

Durante anos, apesar da leitura de fragmentos e textos esporádicos, sentia o interesse por me aprofundar na obra do escritor João Antônio Ferreira Filho (1937-1996).

Entre uma leitura aqui e outra ali, os livros de João Antônio ficaram para trás. E o tempo passou.

Até que percorrendo uma dessas redes sociais, deparei-me com um comentário sobre o escritor que entre outras palavras empurrava um “datado e ponto final”. Como?! Estranhei.

Motivado pela opinião pouco amistosa do internauta, a leitura do livro de contos “Malagueta, Perus e Bacanaço” (1963) tornou-se uma prioridade.

A análise a seguir limita-se a algumas reflexões sobre o conto homônimo.

“Malagueta, Perus e Bacanaço” foi o livro de estreia do escritor João Antônio. Dada a qualidade literária e à inovação em relação ao tema e à linguagem (ele trazia para o texto o modo de falar das ruas e dos jogadores de sinuca), conquistou público e crítica. Como consequência conseguiu simultaneamente dois prêmios Jabuti (revelação de autor e melhor livro de contos), entre outras premiações.

Houve uma adaptação do texto para o cinema na década de 1970. Trata-se de “O jogo da vida” (1976), dirigido por Maurice Capovilla. O roteiro foi de responsabilidade de Capovilla, além do próprio João Antônio e de Gianfrancesco Guarnieri. O filme é estrelado por Lima Duarte, Gianfrancesco Guarnieri e Maurício do Valle. Na trilha sonora, músicas de João Bosco e Aldir Blanc.

No conto, o leitor acompanha os três personagens, apelidados como Malagueta, Perus e Bacanaço ao longo de uma noite. São três malandros, que, entre outras atividades ilícitas, ganham a vida nas mesas de sinuca através da prática de trapaças e conluios. Motivados pela falta de dinheiro (“Estavam os três quebrados, quebradinhos…”), pelo pouco movimento e pela ausência de trouxas/otários em um salão localizado no bairro paulistano da Lapa, o Celestino, decidem sair dali. Percorreriam as ruas, bares, botequins e os salões de jogos de sinuca à procura de indivíduos que eles identificassem como trouxas, otários, coiós, mocorongos, papagaios enfeitados e cavalos-de tetas.

“Os três tacos, direitinhos como relógios, levantariam no fogo do jogo um tufo de dinheiro. Tinham a noite e a madrugada. Virariam São Paulo de pernas para o ar.”

Embora malandros, existia regras e certa lealdade entre eles. Há uma passagem do texto na qual somos apresentados à história de Bacalau. Era um malandro que, de forma descarada, ganhara o dinheiro de Sorocabana, um trabalhador da estrada de ferro. “Para que trouxa quer dinheiro?”. Entretanto, Bacalau, por egoísmo ou esquecimento, não oferecera nenhum mimo para a curriola. Quando precisava, ele sabia que podia contar com o grupo. Dois dias depois, através de denúncia anônima, foi preso pela polícia.

A história se passa numa São Paulo da década de 1960, onde ainda circulavam bondes pela cidade. O filme transporta os personagens para a década de 1970. Os bondes sumiram, todavia, todo aquele painel sociológico apresentado por João Antônio ainda se fazia presente, como também, com certas mudanças e novos acréscimos, ainda persiste nos dias de hoje.

Em volta das mesas de sinuca e dos botequins, além dos jogadores, existia um mundo por onde circulavam os indivíduos menos favorecidos, trabalhadores, mascates e operários advindos das classes sociais mais baixas e das periferias, assim como crianças e adolescentes lutando pela sobrevivência. Outros tipos compunham esse universo: homossexuais, estudantes de escola noturna, cafetões, prostitutas, pedintes, batedores de carteira, traficantes, policiais corruptos, etc.

“Gente. Gente mais gente. Gente se apertava […], gente que vem ou gente que vai.”

A história contada não é amena. Os personagens não são pitorescos, engraçados ou caricatos. A pobreza e a miséria tanto daquela época como a de agora ainda tem elementos desconhecidos, mascarados. Não se restringem a lugar específico ou datado. Os seres que aí habitam, no entanto, não estão conformados, paralisados. Eles lutam, sofrem e se irritam com aquele mundo que os prende, mas que é o único que conhecem e que lhes oferece alguma coisa em troca.

No conto, João Antônio não descreve, entretanto, uma luta de classes, ele apenas nos apresenta uma realidade vivida por certa parcela da sociedade, muitas vezes invisível. Não há julgamento ou idealização.

No filme o personagem Perus apresenta outras características que o conduzem ao questionamento da desigualdade social e da exploração no trabalho. Em “Malagueta, Perus e Bacanaço”, ele é retratado como um jovem de dezenove, “fugido do quartel”, havia saído de casa devido a problemas de relacionamento com o padrasto. Em “O Jogo da Vida” ele é um homem inconformado com o trabalho penoso numa fábrica de cimento, que abandona tudo para tentar a sorte no jogo.

Há uma ausência de humor na trajetória dos três personagens no texto. Em “O Jogo da Vida”, Capovilla se vale um pouco desse recurso na composição de Malagueta, talvez para criar uma dinâmica da qual o conto não necessite.

Parece-me que a noite descrita em “Malagueta, Perus e Bacanaço” é mais opressiva do que em “O Jogo da Vida”. Entretanto, em ambos, a feiura de tudo e todos remete para a nostalgia, a beleza e a poesia.

J. Campos

26-02-18

Uma Primeira Reflexão Sobre o Lagartixa Literária

Texto introdutório

Depois de vencer as “etapas técnicas” de criação do blog, a primeira proposta era a de escrever um texto introdutório. Algo que definisse a existência deste espaço na internet que resolvi utilizar.

Quais eram os meus objetivos, afinal? Pois, precisava escrever algo que despertasse a curiosidade dos visitantes e a sua vontade de continuar fuçando nos meus textos.

O nome lagartixa surgiu instantaneamente em minha cabeça. Todavia, apesar de ter em mãos um vasto material escrito que explicasse as minhas motivações, optei por adaptar levemente um fragmento de artigo sobre xamanismo. Neste encontrava-se o significado simbólico do animal lagartixa na mitologia xamânica.

Talvez eu tenha ficado entusiasmado com as palavras “otimismo”, “adaptabilidade”, “regeneração”, “sonhos”, “renovação” e “transformação”.

Não nego que as carregue em meu ser. Todavia, o que me viera primeiro à mente fora outra coisa. Algo mais amplo e importante para mim.

O resultado? Fiquei incomodado com os vários acessos ao texto. Eu o havia usado para trazer outros tipos de provocações.

Sou uma lagartixa na parede e, como boa lagartixa que sou, preferi perder parte da cauda, pois ela se regeneraria. Eliminei o texto que me incomodava.

Assim, o pequeno réptil continua a sua caminhada. Parece caçar pequenos insetos e, às vezes, trava batalhas homéricas com grandes baratas e escorpiões. Seus rastros estão ali, visíveis nos artigos, resenhas, contos e crônicas que lhes apresento.

J. Campos

02-03-2019