Atalhos

Trilhas encantadoras, caminhos pedregosos, estradas empoeiradas, encostas lamacentas. São os atalhos que encurtam ou, por sorte ou azar, alongam as distâncias, desafogam os congestionamentos, aliviam a ansiedade, alegram e influenciam existências. Alguns, edulcorados, servem apenas para se mostrar às pessoas o quanto se é feliz na fachada. Outros nos fazem ser bem aceitos pelo grupo ao qual pertencemos. Há aqueles que garantem a invisibilidade e propiciam esconderijos aconchegantes, enquanto seus hóspedes fogem aos olhares críticos. Seguros, porém, tensos, vivem num mundo de cautela e isolamento interior. Se um dia a arrogância e a inveja chegarem, os infelizes podem até ganhar confiança e, por pura maldade, apontarem o dedo para os incautos.

Cada pessoa escolhe ou é levada a escolher a zona de conforto mais apropriada para viver as suas fortalezas, medos e aquela sede incontrolável de coisas e poder.

Recorrer a mentiras e golpes baixos. Fingir não conhecer pessoas e lugares. Não assumir os próprios erros. Há uma gama variada de becos úmidos e escuros pelos quais as pessoas se enveredam a fim de chegarem, no menor tempo possível, a alamedas charmosas e bem localizadas.

Ao poupar pernas e pés, ganha-se o tempo e o fôlego suficientes para se dedicar a outras atividades, vivências e problemáticas.

No trabalho, os atalhos auxiliam a alcançar níveis de qualidade e eficiência. Entretanto, a jornada pode conduzir à uma direção contrária. A falta de competência e planejamento, como também o uso de meios e fins pouco nobres, comprometem qualquer tipo de iniciativa.

Na ânsia por status, sucesso e bem-estar, os caminhos longos e enfadonhos são descartados. Entretanto, nem sempre a urgência favorece as escolhas. Inevitavelmente, depois de tomada a decisão, surgem as dúvidas. Foi gratificante deixar de percorrer aquelas belas e extensas paisagens? Gostou da ideia de trocar a visita às pirâmides do Egito pelos parques da Disney? Sentiu-se bem em descartar as ideias e soluções viáveis por resultados imediatos e duvidosos? Não dá para evitar os dilemas trazidos pelos atalhos. Não dá para mudar o passado ou retornar às estradas abandonadas. Todavia, as experiências tais como as de fuga, arrependimento e fracasso são complementos indispensáveis para o aprendizado do viver.

Ainda somos influenciados pelas grandes emoções, caras feias e carrancudas, ameaças, cobranças, chantagens, ironias, palavras mal colocadas, desavenças, xingamentos e autopiedade. A jornada não pode ser outra. Enganamos o tempo. Vivemos o tédio. Abusamos do ócio. Mergulhamos no exagero. Valorizamos a superfície. Evitamos os dissabores. Não enxergamos a nós próprios… não enxergamos a vida.

Não adianta recorrer a mantras, clichês de autoajuda ou a pensamentos edificantes, se não existir atitude e vontade de viver plenamente.

 J. Campos

Barueri, 21-05-2016

Estudo sobre a influência da Lua na menopausa da borboleta azul

 

 

Outro dia coloquei um texto na internet e fiquei surpreso com o “curtiu” de um velho conhecido. Até aquele momento, este nunca demonstrara interesse em minhas postagens. Não que estas fossem o suprassumo da criatividade e merecessem uma perda desesperada de tempo para leitura e contemplação. No entanto, não pude evitar certa curiosidade pelo inusitado. Não resisti em perguntar-lhe sobre coisas que aprimorariam o meu trabalho. A pessoa disse que curtira, mas não lera. Pensei: como alguém pode curtir um texto que não leu? E se eu estivesse propondo algo radical, imoral ou antiético? O conhecido talvez só quisesse ser gentil, mas também poderia estar possuído por um mecanismo automático e irresistível de curtições. Conformei-me, esta realidade existe e faz parte do mundo moderno. A leitura ocorreu depois, talvez devido a uma mistura de constrangimento e simples educação. A espontaneidade se perdeu. Foi um aprendizado para mim.

Nas redes sociais, os usuários, munidos de uma grande lista de “amigos”, geralmente estão atrás apenas das “curtidas”. Embora existam, os assuntos um pouco mais elaborados não são o forte desses sites. Há mais interesse por piadas, fotos, besteirol, joguinhos, amenidades, informações e notícias fast food. Estas, por sua vez, estão diluídos e disseminados em formatos recorrentes: prostituição, pedofilia, assédio sexual e moral, preconceitos, falsidade ideológica, mentiras, meias-verdades, narcisismo, tédio, depressão, más e boas intenções, voluntariado, solidariedade, utilidade pública, opiniões, correntes edificantes, etc. Fora isso, percebe-se que algumas discussões e mobilizações de grande interesse carecem de um pouco mais de profundidade, seriedade, racionalidade e engajamento consciente.

Como o mundo não para de evoluir, o acesso à internet através do celular tem aumentado nos últimos tempos. Ao andarmos pelas ruas, no ônibus, no trem, no ambiente de trabalho ou de lazer, vemos uma multidão com os seus olhares perdidos no visor dos celulares. Dependendo de onde estamos a cena chega a ser engraçada. Parece um bando hipnotizado, para não dizer viciado num excesso de comunicação/informação que nem sempre diz absolutamente nada. Usar o aparelho para fazer ligações rápidas ou, simplesmente, não o ter faz de você algo tão exótico quanto um alienígena.

Há um vídeo bastante compartilhado nas redes, muitas vezes fragmentado e sem referências, do professor Leandro Karnal. Trata-se de uma palestra apresentada no programa “Café Filosófico”, da TV Cultura de São Paulo, intitulada “Hamlet de Shakespeare e o mundo como palco”, do qual selecionei algumas passagens:

“… somos cada vez mais solitários porque temos cada vez mais dificuldade em estabelecer algo orgânico e significativo com o mundo…”

“… o que somos de verdade com ou sem o apoio da igreja, da família e de outras instituições para as quais estamos sempre cumprindo papéis? Se a família te apoiar ou te criticar, você continuará sozinho”.

“… quando não tenho sabor nas coisas que eu vivo e faço, eu multiplico as coisas que vivo e faço. Eu não suporto ficar em casa comigo mesmo. Por isso preciso viajar o tempo todo. Prefiro o caos do aeroporto ao silêncio de casa.”

“…. tente descobrir vagamente quem você é. Você não será feliz. Mas sua consciência o impedirá de ser vazio. E você não precisará postar o tempo todo na internet.”

Apesar de ser um paraíso narcisista ou de felicidade de fachada, não devemos e nem podemos cair no terreno minado da falsa moralidade e do policiamento conservador. A internet, com destaque para as redes sociais, é importante. Há muita coisa boa e válida por ali, para quem sabe aproveitar esta ferramenta e fazer a diferença.

Realizada a pequena reflexão sobre o ser humano e o mundo virtual, surge a necessidade de se olhar um pouco para o mundo do lado de fora. Os exemplos poderiam ser outros, mas os que se seguem são suficientes para continuar o assunto.

Morar em apartamento, em geral, nem sempre dá a oportunidade ou a vontade aos vizinhos de se conhecerem. As interações ocorrem em momentos especiais, como aqueles que envolvem desavenças. O barulho do caminhar de saltos altos em horários impróprios no andar de cima é um santo remédio para a aproximação de indivíduos estressados. Outro modo de contato são as reuniões de condomínio às quais ninguém vai, a não ser que haja algum interesse especial. Muitos nem se cumprimentam quando dividem um elevador ou, quando se topam, no hall de entrada. É perceptível em algumas situações, o ritual de empinar o nariz ou fixar o olhar em uma linha reta e fingir não ver quem passa ao lado. Talvez seja cisma de gente antiga, porém isso não deixa de ilustrar o crescente individualismo e a falta de cordialidade entre as pessoas.

Por falar em cordialidade, utilizar o sistema de transporte público nem sempre é das tarefas mais agradáveis. Usemos como referência a região metropolitana de São Paulo, sem querer generalizar, apenas para citar situações conhecidas. Estamos conscientes de sua precariedade e incapacidade para atender plenamente à demanda. Associado ao que foi dito e à falta de cortesia entre os usuários, nos deparamos com uma luta diária pela sobrevivência. Fura-se as filas de forma descarada. O empurra-empurra e o salve-se quem puder são das coisas mais comuns. Há ainda a falta de respeito em relação ao uso dos assentos preferenciais e o lamentável assédio sexual. Não se pode esquecer daqueles indivíduos que insistem em andar pelo contrafluxo nas estações mais lotadas. Aparentemente, a modinha de impor aos outros o som alto de música de gosto duvidoso dentro do transporte público é coisa superada. Mas ainda existem aqueles que insistem em fazer pregações religiosas fervorosas e cansativas no espaço confinado de um trem em movimento, em pleno horário de pico.

Já, no interior de seus automóveis, os motoristas buzinam inutilmente. O trânsito continua lento e o estresse não ajuda em nada. Quando os carros ganham velocidade, finge-se não enxergar os pedestres, nem se respeita a sinalização. Além disso, alguns motoristas parecem apresentar uma grande dificuldade para acionarem a seta de direção. Na primeira oportunidade fazem manobras desnecessárias, irresponsáveis ou exibicionistas.

Os exemplos e as reflexões são inúmeros.

Em algum momento da escala evolutiva, os seres humanos sentiram a necessidade de se reunirem em grupos para vencerem os obstáculos e se protegerem contra os perigos da natureza. Hoje, a salvo no ambiente urbano, o homem se esconde no seu egoísmo, narcisismo e individualismo. A vivência dentro das sociedades se tornou outra coisa.

Provavelmente teria sido mais divertido, interessante e empolgante escrever um “Estudo sobre a influência da Lua na menopausa da borboleta azul”. Mas e daí? O que viria depois? A inquietação não deixaria de existir.

J. CAMPOS

Barueri, 03-11-2015

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um Filme, um Livro e a Falta de Educação

O filme americano “Conrack” (1974), do diretor Martin Ritt, protagonizado por Jon Voight, baseia-se no livro “The water is wide”, de Pat Conroy (1945-2016). Nesta obra, Conroy relata a sua experiência como professor em uma escola localizada na ilha Daufuskie, Carolina do Norte, em 1969.

Entre as obras de Pat Conroy, algumas adaptadas para o cinema, devemos mencionar ainda “O príncipe das marés”, “Guardiões da honra”, “Os senhores da disciplina” e “O grande Santini”.

Em “The water is wide”, somos apresentados a população local da época, constituída por uma comunidade de negros pobres. O único homem branco que vivia ali era um pequeno comerciante.

Conroy chega a escola, uma construção bastante precária, entusiasmado. Lá é recebido pela Srª Scott, interpretada pela atriz Madge Sinclair, que torce o nariz. Como se não bastasse ser um homem, era um homem branco.

O nome Conrack surgiu da dificuldade que os alunos sentiam ao pronunciarem seu nome. Isolados naquele lugar, é natural que a língua tendesse para uma dialetação.

Em breve diagnóstico, o professor logo constatou que seus alunos apresentavam séria defasagem em relação aos conteúdos escolares, inclusive analfabetismo numa turma que deveria estar mais adiantada.

A diretora era adepta dos castigos corporais e das humilhações, como forma de educar e controlar os alunos. Marcada pelo auto preconceito, a Srª Scott parecia acreditar que era inútil dar esperanças para aquelas crianças e adolescentes. O futuro delas estava na ilha, na pobreza e na ignorância. Em sua visão, eles não necessitavam aprender mais do que já sabiam. Precisavam ser disciplinados e se conformarem com a sua origem, pois eram lentos e preguiçosos. Mas ao longo do filme, percebemos que ela apenas fora vencida pelo sistema.

Todavia, Conroy é aquele tipo de professor que ama a profissão e acredita no potencial transformador da educação. Para ele, aquelas crianças mereciam um ensino de qualidade, como quaisquer outros alunos. Seu papel era o de fazê-las enxergar e entender que existia um mundo além da ilha.

Suas aulas eram dinâmicas e divertidas. Suas brincadeiras e estilo brincalhão possuí um sentido pedagógico. Assim, eles tinham aula ao ar livre, ouviam música clássica, assistiam a filmes, faziam educação física, aprendiam a nadar e a escovar os dentes. Em certa ocasião, Conroy os levou para conhecerem a cidade de Beaufort e participarem das comemorações do Dia das Bruxas. Nesta sequência, são bastante simbólicas a saída da ilha, a travessia de barco e a chegada ao “mundo civilizado”.

O Sr. Skeffington, supervisor da escola, interpretado pelo ator Hume Cronyn, mora na cidade de Beaufort. Um homem racista e conservador, o qual, portanto, não compactua com os ideais, nem com a metodologia pouco convencional de Conrack. Para ele não havia necessidade de mudança. Em uma cena, ameaça os alunos com um chicote, quando vê que o professor perdera o controle da classe.

A experiência de Conroy ocorreu numa época agitada. A Guerra Fria estava no auge, os jovens desafiavam os padrões estabelecidos, transgrediam. O movimento hippie e a contracultura horrorizavam os conservadores.

Em setembro de 2018, um episódio às vésperas das eleições no Brasil, envolveu o livro “Meninos sem Pátria”, do escritor Luiz Puntel. O livro, cuja primeira edição foi apresentada em 1981, é adotado, há vários anos, pelas escolas como leitura paradidática. Mas neste, motivados pelo clima polarizado e alimentados por boatos e notícias falsas, um grupo de pais de uma escola particular, a Santo Agostinho, no Rio de Janeiro, exigiu a retirada do livro da lista de leituras obrigatórias da 6ª série. Foram prontamente atendidos. O recuo da escola certamente esteve ligado a uma pressão financeira.

Segundo aqueles pais, o livro faria apologia ao comunismo e apresentaria uma visão distorcida em relação ao período histórico retratado e aos militares.

Baseado em fatos reais, o livro, um romance infanto-juvenil, relata, através da narrativa do filho mais velho, a história de sua família. O pai se torna perseguido político por conta do teor de algumas reportagens que fizera. Desta forma, a família é obrigada a seguir para o exílio. Inicialmente vão para o Chile. Depois, com a ascensão de Pinochet, fogem para a França.

Com linguagem e enredo desenvolvidos de forma simples e adequada a faixa infanto-juvenil, parece-me que a única ameaça do livro é a de tirar os jovens do terreno fácil da alienação.

O meu gosto e prazer pela leitura foram despertados na década de 1970, principalmente, através das coleções de livros da editora Ática, “Vaga-Lume”, da qual “Meninos Sem Pátria” faz parte e de outra, a “Para Gostar de Ler”. Instalada a polêmica, não pude evitar a curiosidade e a vontade de ler o livro e relembrar a minha adolescência na época da ditadura. Ao mesmo tempo, pesou na minha decisão a minha formação como professor de português e a necessidade de embasar a minha opinião sobre este episódio. Um episódio que, por assim dizer, marca o início de uma triste volta ao passado.

Uma frase bastante lembrada durante esta polêmica foi a do poeta judeo-alemão Christian Johann Heinrich Heine (1797-1856): “Aqueles que queimam livros, acabam cedo ou tarde por queimar homens”. Nada mais emblemático, quando refletimos sobre as lições deixadas pela história da humanidade.

Na década de 1970, em plena ditadura, vivíamos como que isolados numa ilha. Com pouca disponibilidade de informações, ingênuos e sabe-se lá mais o quê. Sabíamos o que acontecia no País, mas não conhecíamos a riqueza dos detalhes. Aprendíamos a ler, escrever, interpretar e a ter uma visão crítica sobre os livros que os professores conseguiam nos indicar. No pátio da escola faziam-nos cantar o hino nacional e algumas vezes uma daquelas músicas da dupla Dom e Ravel.

“Meninos Sem Pátria” a meu ver não induz a ideologia nenhuma. O livro apenas fornece elementos para que, com a mediação do professor, discuta-se um período histórico pelo qual passou o País. Interpretações equivocadas e emocionais decorrem da preguiça, da falta de estudo e de leitura.

Ao proibir um livro e/ou incentivar alunos a vigiarem, gravarem a fala do professor com a intenção de censurar e retaliar, perde-se uma das principais funções da escola, que é a de ensinar, compartilhar e discutir sobre a diversidade.

Voltando a “Conrack”, o professor foi vencido pelo sistema, representado no filme pela figura do personagem de Cronyn. Manter aqueles negros, aquela comunidade na ignorância seria a forma de perpetuar o modelo de exploração escravocrata. Seria manter uma mão de obra barata, ignorante e submissa presa à terra e à dominação vigente. Apesar disto, mesmo que tenha sido por pouco tempo, o professor conseguiu deixar uma semente em seus alunos, uma esperança, uma vontade de sair da ilha.

 

J. Campos

Barueri, 18-11-2018