O “Rimbaud Negro”: O Poema Nascido entre o Deserto e a Savana

 

Em 2017, R. Roldan-Roldan lançou o romance “Zirpiak, Última Fronteira”, agora em 2018 chega com dois livros de poesia. São eles: “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” e “Petit Léxique Poétique”. Este último escrito em francês.

Neste artigo vou me ater ao livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”, onde o autor presta uma homenagem a Jean-Nicolas Arthur Rimbaud (1854-1891), poeta inquieto, controverso, mas que influenciou muitos escritores que vieram depois. Rimbaud é bem conhecido pelo relacionamento amoroso e avassalador que teve com Paul Verlaine, mas também pelo estilo agressivo e inovador de sua poesia. Precocemente, deixou de escrever aos dezenove anos e iniciou uma longa viagem pela Europa, Ásia e África. Retornou para a França aos 37anos, onde morreu devido às complicações de uma gangrena na perna. Embora careça de profundidade e de um roteiro fraco, o filme “Eclipse Total de uma Paixão (Total Eclipse)”, da diretora polonesa Agnieszka Holland, fornece um retrato do poeta em questão.

O livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” não se resume a uma mera homenagem. Rimbaud permeia a trajetória, as buscas, as dúvidas e as conquistas roldanianas. O protagonista aqui é o próprio Roldan. Em livros anteriores ele vestiu o alter ego David Haize, agora mistura as próprias experiências a do poeta francês.

No poema “Rimbaud no inverno”, Roldan se lembra que não tinha a liberdade de Rimbaud, mas desenvolvia as suas atitudes e espírito crítico com aquilo que conseguia extrair do meio em que vivia: “[…] Não fugi não entrei na legião estrangeira/ Tinha que trabalhar para ajudar os meus/ Mas o desprezo pelos valores burgueses é o mesmo […]”.

É claro que para falar de Roldan-Roldan não é suficiente relacioná-lo apenas a Rimbaud. Mas as pistas e referências podem ser encontradas no conjunto de sua obra. Ele não é um escritor convencional. Ele não trabalha a poesia fácil e medrosa. Em todos os gêneros literários que pratica, foge do óbvio e de dogmas comerciais, assim como daquele estilo “fino, elegante e mediano” que consagra e deixa na zona de conforto alguns autores da nossa atualidade. Seus textos e poemas não são forjados em oficinas de escrita literária, com hora marcada e cartão de ponto. O tempo que dedica a seu trabalho é longo e árduo. Sua dedicação não é controlada por regrinhas e etiquetas preestabelecidas. Os textos roldanianos transpiram literatura. Talvez esteja aí o seu erro. Nestes tempos tecnológicos e individualistas em que vivemos, fica difícil transpor determinadas barreiras e convenções a fim de ganhar a simpatia dos leitores. Gosto de uma frase da escritora Ligia Fagundes Telles, que li em entrevista dada por ela em 2007 para a Folha de São Paulo: “Quem está em processo de extinção é o leitor, que lê pouco ou não entende o que lê. Já o escritor anda aparecendo por toda parte. Ainda bem, estão aí todos lutando, escrevendo, as prostitutas fazendo suas memórias. Que façam, que escrevam, tudo é válido. Mas leiam!”

O poema “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”, que dá título ao livro, é desenvolvido em três vozes. Nele conhecemos um homem negro nascido em Benim, na cidade de Cotonou. Filho de mãe agudá e pai francês, apaixonado pela poesia de Rimbaud, inicia uma peregrinação rimbaldiana. Além de fatos e lugares, testemunha os protestos de maio de 1968, conscientiza-se de sua negritude e de suas origens, além de ser deportado dos Estados Unidos por participar das manifestações pelos direitos civis. Nada mais roldaniano impossível e não podia ser diferente.

Escrever é natural para Roldan-Roldan. Ele não exagera ou floreia. Cada palavra, cada verso se apresentada de forma bem dosada. Seu mundo, embora flerte com o onírico, não é idealizado. As personagens não são mornas, nem assexuadas. Elas brigam, comem, bebem, vão ao banheiro e fazem sexo. Assim, ele resume em um dos versos: “o poeta que não vai a extremos não sabe o que é poesia”.

No poema “Entre Exílios”, um cavaleiro errante apresenta um dos estigmas roldanianos: “Como bala jamais retirada da carne/ Carrego o exílio […]”. Em “Infância”, o cavaleiro errante nos apresenta o Roldan menino: “[…] Quando o Sultão Shariar adormece/ Sheherazade conta histórias ao menino pobre/ Que sonha com doces finos […]”. Em “Sexo”, ele cultiva a paciência e resiste à espera: “[…] Longo jejum vontade premente / Rangem as dobradiças enferrujadas exasperadas / […]”. Em “Superioridade”, ele levanta o tom, fala de sua integridade e de suas revoltas: “[…] Por que não assumirias a tua superioridade / Se só acreditas no amor pelo ato / […] Se percebes que toda palavra deve ser renovada pela ação / […]”. Em “Desolação”, fala do passado e de suas perdas: “[…] Há um desfilar de ausências / Mortos amados que ensaiam patética farândola / […]”.

A obra de R. Roldan-Roldan é muito madura e consolidada. Seus textos, sejam em forma de artigos, romances e poesias, são profundos, humanistas e delicados. Entretanto, “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo” pertence a uma nova fase literária do autor que se iniciou com o romance “As Três Viagens de David Haize”, em 2015. É um assunto que pretendo desenvolver em outros artigos e trabalhos, porém, percebo os textos roldanianos atuais carregados de mais intensidade e urgência.

Para quem gosta de boa poesia, recomendo o livro “O Rimbaud Negro ou A Lua do Desejo”.

J. Campos

Barueri, 22-09-2018